Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
Concorda que as autarquias sejam obrigadas a limpar terrenos privados, caso proprietários não o façam?
Sim
Não
Não sei / Talvez
Edição Nº 62 Director: Mário Lopes Quinta, 1 de Dezembro de 2005
Nazaré
Investigadores discutiram importância da Lagoa da Pederneira

Colóquio 

As transformações geológicas que levaram à formação da Lagoa da Pederneira, e a ocupação humana das suas margens desde o Neolítico até ao seu desaparecimento, foram o tema do colóquio "Lagoa da Pederneira - Geologia e História", que decorreu no dia 26 de Dezembro, na Antiga Casa da Câmara. Este colóquio, que incluiu uma saída de campo no dia 27, abrangendo sítios anteriormente ocupados pela lagoa, contou com a participação de diversas personalidades ligadas ao mundo académico e da investigação, representando algumas das principais universidades do País.

Saída de campo 

O colóquio, promovido pela Câmara Municipal da Nazaré, no âmbito da Semana da Ciência e da Tecnologia organizada com o apoio da Ciência Viva, contou com a participação de cerca de 70 pessoas e diversos especialistas na matéria. 
        

Lagoas da Pederneira e Alfeizerão, por Adriano Monteiro

Falar destas lagoas ou mais propriamente destes Golfos não é fácil. Não tanto por falta de documentação que não sendo pouca, acaba por ser repetitiva. A primeira referência histórica relativamente ao golfo de Alfeizerão é em nossa opinião de Rúfio Festo Avieno, Orla Marítima, escrito por volta do ano 350 d. C., embora sendo um repositório de notícias desde o século VI antes de Cristo, que com toda a evidência, fez de escritores estrangeiros precedentes, que leu e examinou, é sem dúvida o primeiro transmissor dos primeiros dados conhecidos, sobre e descrição das terras da Europa Ocidental, e em especial das regiões marítimas desde Marselha ao estreito de Gibraltar.

 Adriano Monteiro

Dele nos servimos para elaborar o trabalho Ílha Plágia apresentámos nas II Jornadas da Cultura Marítimas da Nazaré 1998, que acabou por não ser publicado por dificuldades de software. Dissemos então que a Ílha Plágia procurada por Leite de Vasconcelos, Martins Sarmento e Mendes Correia entre outros, se situava no golfo de Alfeizerão, esta nossa convicção baseia-se entre outras referências, num documento do século XIII referente ao aluguer da ilha plagia na foz do rio Salir para exploração de Sal, (RAU, Virgínia, “A Exploração e o Comércio do Sal de Setúbal” Estudo de História Económica vol. I, pp. 37-38, Lisboa, 1951).   

É preciso esperar até ao século XVII (1609) para que o cronista alcobacense Fr. Bernardo de Brito volte a falar muito levemente da II parte da Monarquia Lusitana deste mar interior. A sua informação consta de lápides que diz ter encontrado junto da Igreja de S. Julião e que mandou ler.

O analista da edição fac-similada desta obra Silva Rego é da opinião que Brito continua a ser das mais discutidas autoridades históricas portuguesas. A discussão, à volta de do seu nome travada, chegou a unânime conclusão: os seus escritos não devem ser aceitos de ânimo leve. Daqui para diante, dividem-se as opiniões em dois sentidos: um mais rigoroso e outro mais benigno. Diz Silva Rego, que Brito encaixa a mitologia na história aproveitando-se de todos os autores que seguiram tal método. Advertindo-nos principalmente quando aborda temas religiosos.

Quando Brito diz ter encontrado as lápides em S. Gião, somos dos que não vêem qual o interesse de não ser verdade. Embora achemos estranho que Manuel Brito Alão em 1628, ao visitar S. Gião refira apenas: – persuadindo-se a isso de algumas letras que viram e acharam em pedras grandes, que pareciam ser do tempo dos romanos.

Voltaram as ser os cronistas de Alcobaça Frei Brandão, Manuel dos Santos e Manuel Figueiredo que nos deixaram mais informações sobre este mar interior.

Brandão fala-nos do porto de Alfeizerão e Santos da Torre de S. Gião e curiosamente das dunas que começam a levantar-se frente à Barca.

Seguiram-se outros autores sendo de destacara a grandiosa obra de Adolfo Loureiro em Os Portos Marítimos de Portugal publicado entre 1904 e 1910, em sete volumes e mais três de Mapas.

De referir Manuel Vieira Natividade na sua obra Mosteiro e Coutos de Alcobaça, publicado pelo seu filho em 1960. No último capítulo – Portos de Mar – é um trabalho de referência sobre a Lagoa da Pederneira.
Tito Larcher, Iria Gonçalves, Jaime Cortesão, Fernando Castelo-Branco, Pedro Barbosa, Fernanda Espinosa e muitos outros sem ignorar as cartas topográficas são autores que não poderão deixar de se consultar para se ter um conhecimento deste mar interior.

Pena é que não se conheçam as lápides descritas por Brito, mas a Igreja de S. Gião os castelos e torres e fachos, que contornam este mar interior apontam para que possamos classificar como de importância ímpar na Península Ibérica.

Estamos convictos que as novas técnicas ao serviço da Arqueologia, possam pôr a descoberto a cidade de Eburobrittium que cremos estar na Ilha Plagia a Sul do antigo campo arqueológico do Pedrógão-Alfeizerão.

Muitos barcos estarão sepultados no fundo destas lagoas.

A igreja de S. Gião, que Brito nos levar a crer ter sido dedicada por Décio Júlio Bruto a Neptuno pela guerra contra os moradores de Eburobrittium e os montanheses que lhe vieram em socorro, levou muitos investigadores a admitir que se trata de lutas travadas entre os guerreiros de Viriato e os soldados romanos.

Uma vez que não podemos contar com estas informações pouco consistentes que vão circulando, cabe-nos centrar o nosso trabalho na recolha de informações que colhemos no terreno, e juntá-las aos documentos bibliográficos que dispomos.

Neste campo, temos recolhido nas nossas pesquisas informações em obras menos específicas como é o exemplo desta incerta nas Revelações da Minha Vida de Luz Soriano, que vivendo em Famalicão em 1810, ao fugir para Lisboa, à perseguição dos soldados de Napoleão, regista nas suas Memórias: – «chegámos á pequena vila de S. Martinho do Porto, onde então nos embarcamos para Lisboa, não o tendo assim feito quando sahimos de Famalicão, por se não ter então achado hiate algum, que geralmente fallando, são as unicas embarcações, que entram n’aquella bahia, da qual tão bello porto  se podia fazer, se o governo para alli olhasse como devia, quebrando os cachopos, que lhe obstroem a barra e tirando por meio de dragas as areias, que entulham a respectiva concha».

O “Pelourinho” da Pederneira e o impacto dos Fósseis na Cultura e na Religião popular - por Carlos Neto de Carvalho *

O “Pelourinho” da Pederneira é um importante cartão de visita do concelho da Nazaré. Mais interessante se torna quando, analisando com maior detalhe, verificamos que corresponde a um fragmento de tronco fossilizado, erguido no séc. XIX em substituição do velho símbolo manuelino da autonomia municipal então perdida. Contudo, a sua presença intemporal na Pederneira e a possível relação etimológica com o topónimo de raízes medievais ou anteriores, sugere uma interacção simbólica com o Homem que se perde nos confins da nossa imaginação.

Respeitado exemplar da flora tropical fini-jurássica, com a provecta idade de quase 150 milhões de anos, o “Pelourinho” da Pederneira é um dos monumentos naturais classificados mais antigos em Portugal, datando de 1933, numa época em que pouco ou nada se falava em políticas de conservação da natureza. No entanto, a sua classificação como Imóvel de Interesse Público foi atribuída apenas por valores culturais e históricos.

Os fósseis e a sua origem interrogaram-nos por milénios. Como evidências de seres vivos do passado, as suas formas por vezes tão distantes da realidade biológica experimentada e o modo como surgem nas rochas conjugaram-se para causar espanto, constituindo símbolos do “maravilhoso” em numerosas culturas espalhadas pelo mundo.

As ocorrências ordinárias de fósseis alimentaram mitos por milénios, no que diz respeito à sua utilidade magico-medicinal. A medicina medieval, na mesma filosofia dos ex-votos, acreditava na cura por analogia: os dentes de tubarão fossilizados, então conhecidos como Glossopetrae ou línguas-de-pedra e comparados às línguas de cobra, eram vulgarmente aplicados contra envenenamentos. Seriam estes mesmos fósseis que abririam o caminho, no séc. XVII, aos fundamentos da Paleontologia como ciência determinante para o conhecimento da evolução da vida na Terra.

Na busca de explicações para a ocorrência dos fósseis, houve a necessidade, em casos mais espectaculares, de inclui-los nas crenças religiosas correntes, tornando-se objecto de devoção. Em Portugal, um palimpsesto milenar de culturas e religiões alimentou até aos dias de hoje a veneração a Nossa Senhora da Pedra da Mua, cuja lenda assenta nos trilhos de pegadas de dinossáurios saurópodes que ocorrem sob o santuário do Cabo Espichel.

Já o culto a Nossa Senhora da Conceição em Milreu (Vila de Rei), espartilhante de práticas ofiolátricas pretéritas mas não inteiramente esquecidas, poderá estar associado à “Bicha Pintada”, pista fossilizada sinuosa de um artrópode marinho que se viu há muito mitificada e, muito recentemente, confundida com arte rupestre. Este é um dos exemplos em que a racionalidade científica contemporânea se mostra, em certos casos, ainda hoje dependente da realidade vivencial, provando que a natureza não deixa de alimentar a imaginação na idade dos computadores.

São geomonumentos como os acima citados, guardiães de múltiplas histórias, que assumem uma importância crescente como locais de interesse turístico. O culto foi em parte substituído por um novo tipo de peregrinação, em caminhos que fazem retroceder no tempo, que nos trazem à nossa condição primordial de seres biológicos e que coleccionam as raridades do maravilhoso natural. São as pegadas de dinossáurios da Serra d’Aire, bem próximo do Santuário de Fátima, os dinossáurios da Lourinhã e a Rota dos Fósseis de Penha Garcia, entre a “aldeia mais portuguesa de Portugal” e as “Águas Santas” de Monfortinho que se desenvolvem como bem sucedidas atracções turísticas e que constituem os “novos” símbolos culturais das localidades próximas.

Por tudo o que representa, o “Pelourinho” da Pederneira não deve cair no esquecimento da Nazaré, o que levará indubitavelmente à sua degradação. 150 Milhões de anos depois, este geomonumento reúne as condições para ser aproveitado como a “imagem de marca” turística do espectacular património natural da Nazaré, aquele que é sobejamente conhecido e aquele que ainda está por descobrir. Assim saibam contar a sua história.

* Centro Cultural Raiano
Av. Zona Nova de Expansão 6060-101 Idanha-a-Nova. E-mail: paleo@walla.com.

 
          Fonte: Gabinete de Imprensa da Câmara Municipal da Nazaré

01-12-2005
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Comentário de Ivo Miguel Ferreira Batista
26-03-2009 às 18:48
Foi pena não poder ter ido a este colóquio de enorme interesse a nível regional e mesmo nacional! Estou a realizar um projecto sobre A Igreja de São Gião à disciplina de Teoria e Prática da História Regional e Local do curso de Eucação Social da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria e este artigo forneceu-me muita informação referentes à época em estudo.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
OPINIÃO
Porque apoio Manuel Alegre
Uma segunda volta clarificadora
Voto Jerónimo de Sousa É precisa memória e não ser ingénuo! Ter confiança e muita determinação!
Não dou cavaco
Mensagem do Natal 2005
Porque é feriado dia 8 de Dezembro? Imaculada Conceição de Maria Santíssima
O Pesadelo do Pai Natal
Os Bancos Alimentares Contra a Fome e a Generosidade dos Portugueses
O "meu" Brasil
Restauração da Independência de Portugal
As eleições presidenciais
 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o