
Paulo Lameiro entregou o troféu a Sónia Tavares,
Nuno Gonçalves e Paulo Praça
A XVII Gala do Rádio Clube de Leiria teve lugar dia 16 de Outubro, no Auditório Paulo VI, em Fátima, num ambiente de exaltação da cultura portuguesa. Amália Hoje, Pedro Barroso, Adelaide Ferreira, Marco Paulo, Lenita Gentil, Carminho, Lara Li, Tânia Ribas de Oliveira, Manuel Luís Goucha, António Feio, Adelino Gomes, Luís Bilro, Luís Pinto, os Improving, e Tocá Rufar foram os distinguidos com os prémios “Pedrada no Charco”. Com uma casa quase cheia, Emília Pinto, directora do Rádio Clube de Leiria, emissora que completa este ano 27 anos, apresentou a cerimónia de entrega dos troféus aos que souberam usar de forma exemplar “A Voz e as Palavras”, tema que dominou a noite.
A Gala abriu ao som do bater dos tambores com a entrada estrondosa dos Tocá Rufar, grupo composto por jovens que demonstrou uma grande destreza na arte de manusear o Bombo. O mentor deste projecto, Luís Júnior, subiu ao palco para receber o troféu Educação pela Arte do Bombo e Cultura Portuguesa, lembrando que este instrumento de música popular é um “símbolo da nossa identidade”. Existente desde 1996, este projecto conta actualmente com cerca de 8 mil participantes, alguns dos quais já chegaram a actuar em exposições mundiais, tendo sido escolhidos, por exemplo, para representar a Europa na Expo 2005, no Japão.
O actual jogador da selecção portuguesa de futebol de praia, Luís Bilro, recebeu o troféu Carreira Prestígio na Área do Desporto. O futebolista distinguiu-se ao serviço da União de Leiria, tendo vestido 325 vezes a camisola do clube e envergado a braçadeira de capitão de equipa entre 1993 e 2004.

Emília PInto e Adelino Gomes
A seguir, o prémio de revelação local foi para o grupo Improving. O projecto com dois anos é protagonizado por dois funcionários da rádio de Leiria, tendo apresentado uma canção em Inglês sobre o amor paternal. O troféu foi entregue pelo guitarrista português Joel Xavier, que também actuou nesta noite.
Outra personalidade ligada à cidade de Leiria, Luís Pinto, presidente da ASAL (Associação de Solidariedade Académica de Leiria), recebeu o troféu Prestígio Cidades de Leiria e Fátima. Sempre ligado ao associativismo juvenil, Luís Pinto tem agora o projecto de abrir um lar para jovens carenciados e em risco em Leiria, dentro de dois a três meses, cidade onde não existe qualquer instituição dessa natureza.
A música regressou ao palco, com Carminho, que veio receber o troféu de Melhor Nova Voz do Fado. A jovem fadista, oriunda de Lisboa, editou o seu primeiro disco intitulado Fado em Junho de 2009, mas tinha apenas 12 anos quando actuou pela primeira vez no Coliseu de Lisboa. Notável foi também a sua participação no filme “Fados”, do espanhol Carlos Saura, em 2007. “Escrevi o Teu Nome no Vento” foi o fado que a sua voz entoou no auditório Paulo VI.

Lara Li
Adelino Gomes, natural de Marrazes, em Leiria, contou com humor, que a sua primeira reacção ao saber que tinha ganho o troféu de Melhor Voz Nacional de Rádio nos prémios Pedrada no Charco foi de “irritação interior”. O jornalista explicou que já é o segundo premio que recebe como um locutor, mas ressalva que entrou na rádio “não para ser uma voz, mas para dizer palavras, numa altura onde se tinha que resgatar a palavra”. Jornalista há 47anos, passou pelo Rádio Clube Português, Rádio Renascença e RTP, tendo coberto o início da guerra civil em Angola e a de Timor.
Jornalista do Publico até 2008, é agora o Provedor do Ouvinte da RDP. Considera que hoje em dia a luta dos jovens jornalista é a mesma que a dos mais antigos, lembrando que, para exercer a profissão de forma independente, não se pode praticar o jornalismo em condições materiais tão precárias.
Foi com duas canções, “Dava Tudo” e “Papel Principal”, que Adelaide Ferreira entrou na gala, para receber o troféu de Melhor Intérprete Feminina da Música Portuguesa. A cantora, que lançou no ano passado o álbum “O Melhor de Adelaide Ferreira”, onde reúne todos os seus êxitos, revelou que ainda lhe falta escrever um livro. Segunda a premiada, para quem a música faz voar, é a ler um bom livro que se viaja.

Emília Pinto, Sílvia Rizzo e Manuel Luís Goucha
O troféu de Melhor Intérprete Masculino da Música Portuguesa foi para Marco Paulo, que fez questão de receber o troféu antes de cantar. O cantor dedicou o prémio às fãs que o seguem há 40 anos e recebeu uma ovação em resposta das admiradoras presentes na sala. A pedido de Emília Pinto, a apresentadora da gala, o tema escolhido foi “Nossa Senhora”.
O troféu Carreira Prestígio foi para a cantora Lenita Gentil, oriunda da Marinha Grande. A fadista, que começou a cantar em público aos 5 anos, pode hoje ser ouvida quase diariamente na sua casa de fados, o Faia, no Bairro Alto, em Lisboa, reconhecendo que não actua muito no distrito de Leiria. A fadista brindou o público com “Fado Pechincha”, uma música retirada do seu último trabalho, e “Tarde Triste no Campo Pequeno”, o “pasodoble” que serviu de trampolim no início da a sua carreira. Lenita Gentil recebeu o seu troféu das mãos do Humberto Paiva de Carvalho, governador civil de Leiria.
Manuel Luís Goucha recebeu o troféu Carreira Prestígio na Área da Comunicação, prometendo dedicar-se a defender causas solidárias, pois, caso contrário, garante devolver o prémio daqui a 10 anos. Foi a actriz Silva Rizzo que entregou o galardão ao apresentador da TVI, trazendo consigo duas mensagens de amigos. Uma, de Herman José, onde o humorista compara o trabalho de Manuel Luís Goucha a um hambúrguer mediático transformado num “vol-au-vent” e outra, da autoria de Luís Andrade, director de programas da RTP, que realizou entre outros o Zip-Zip, onde congratula o apresentador televisivo por o seu primeiro prémio ser uma “Pedrada no Charco”, que não é atribuído por amizades ou interesses políticos.

José Pedro Gomes e António Feio
O ponto alto da noite foi sem dúvida a entrega do troféu Mérito Artístico a Lara Li. A cantora de música ligeira portuguesa, que está sem novo trabalho e afastado dos palcos há cerca de 10 anos, explicou essa ausência por não ser pessoa que batalhe contra as dificuldades que surgem, embora prometa estar na música enquanto tiver coisas a dizer às pessoas. Para a premiada, a voz é um instrumento para servir as palavras, sendo, por isso, uma forma de estar não ligeira, em contraste com a sua música.
Após um grande momento de música com o célebre “Telepatia” e “Eu Gosto Tanto de Ti”, Lara Li recebeu o troféu das mãos de Simone de Oliveira. A intérprete de “Desfolhada”, que numa intervenção vibrante falou em defesa dos grandes talentos portugueses que não conseguem ser editados em Portugal pela falta de reconhecimento, revelou que a própria gala poderia vir a ser a última por falta de financiamento, apesar da organização não o ter confirmado.
A gala prosseguiu com gargalhadas ou não fosse António Feio o convidado seguinte. O actor, de 55 anos, ficou conhecido sobretudo com as “Conversas da Treta”, espectáculo que descreve como um disparate completo em que as pessoas se revêem. Este espectáculo de improvisação teatral com mais de 12 anos é partilhado em palco com José Pedro Gomes, cuja presença em palco foi uma das surpresas da noite, com o actor a vir pessoalmente entregar o troféu de Melhor Humorista do Ano ao colega. A melhor dupla de comediantes do teatro português proporcionou ao público um dos inesquecíveis momentos das “Conversas da Treta”.
João Baião e Tânia Ribas de Oliveira
José Pedro Gomes sublinhou que o prémio era para quem mais fez pelo teatro português, para o maior encenador e para um grande actor. António Feio, que diz que o seu lugar é no teatro, começou a sua carreira no Teatro Experimental de Cascais, passou pela televisão, pelo cinema, pela rádio (TSF) e fez dobragens para cinema. O actor não esqueceu a mulher, Cláudia Cadima e os filhos, a quem dedicou o prémio e que o acompanharam também nesta noite.
Seguiu-se o prémio “A Voz e as Palavras”, atribuído a Pedro Barroso, cantor de Torres Novas que já actuou em praticamente todas as grandes salas de espectáculos de Portugal e várias no estrangeiro,em países tão distantes como Holanda, China ou América. O cantor popular português conhecido por seu temperamento reivindicativo, nomeadamente, pelo seu Manifesto sobre o Estado da Música Portuguesa, frisou que às vezes é preciso ralhar para proporcionar um futuro melhor. O músico associou-se aos comentários de Simone de Oliveira lamentando que em Portugal se esteja pouco atento às pessoas que têm algum mérito. Em estreia absoluta, cantou “Música, Música”, dedicando-a a Adriano Correia Oliveira, amigo do cantor, falecido há 25 anos.
Ser “comunicativa, expressiva, profissional e muito gira” foram algumas das razões invocadas para nomear Tânia Ribas de Oliveira para o troféu Apresentadora da Nova Geração. A apresentadora da tarde da RTP, de 33 anos, diz que gostaria de ter força para carregar a câmara e ser repórter de imagem ou mesmo realizadora, mas actriz de cinema, pois adora o contacto directo com o público. A apresentadora foi surpreendida na gala pelo seu colega de programa, João Bailão, que veio a Fátima entregar-lhe o prémio. Tânia Ribas de Oliveira não se fez rogada, descalçou de imediato os sapatos e correu para acolher em palco o colega com um grande abraço.

Carlos Pinto Coelho entregou o prémio a Pedro BarrosoAs últimas notas da noite foram para “Amália Hoje”, considerado o Melhor Projecto Musical do Ano. O álbum, lançado no passado mês de Abril, é uma união entre os fados de Amália Rodrigues e o som pop actual, contando com a participação de Nuno Gonçalves, Sónia Tavares, Fernando Ribeiro (que não esteve presente , por estar em digressão com os Moonspell) e Paulo Praça. Uma década depois do desaparecimento da diva do fado português, este trabalho é “uma ponte entre o passado e o presente para as novas gerações descobrirem Amália Rodrigues”, segundo Nuno Gonçalves, mentor do projecto. “ Há gente nova a cantar Amália como se ela estivesse viva e isso é o mais importante”, afirmou.
Embora a primeira reacção tenha sido rejeitar a ideia por conhecer mal a fadista, o teclista dos Gift revelou ter aceitado o projecto porque “Amália, para além do xaile e do fado, quando estava em palco emanava a luminosidade de uma cantora pop”. Apesar deste grande sucesso, Nuno Gonçalves pôs de parte a ideia de recriar temas de outros grandes ídolos musicais do século XX como, por exemplo, Zeca Afonso. Os músicos ofereceram ao público os temas “Gaivota”, cantado por Sónia Tavares e “Nome de Rua”, interpretado por Paulo Praça. Foi ainda ao som dos fados de Amália Rodrigues e com fotografias da fadista a desfilarem no ecrã, que a gala findou, enquanto todos os galardoados subiram ao palco uma última vez.
Susana Marto