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Edição Nº 52 Director: Mário Lopes Quarta, 16 de Fevereiro de 2005
Opinião
Os Brâmanes

 António Honório

Há alguns anos o Dr. Mário Soares, aquando das comemorações dos 500 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia, preferiu não falar em "descoberta" mas sim em "encontro de culturas". Brilhante afirmação, sobretudo prospectiva, que proferiu, dado que, na altura em que era rubro e euforia que vibravam em Portugal, não teria senão um pouco da noção do quanto estas palavras se enchiam de sabedoria, sobretudo ao momento presente. Neste difusionismo cultural, no qual Portugal desempenhou um papel pioneiro de relevo, não foi só o tipo de Estado que levámos ao oriente nem somente a moda e as semanas culturais e as lojas que de lá trouxemos: também trouxemos algo tipicamente indiano, característica de uma sociedade fechada, estática e hierarquizada... os brâmanes.

Tal como aos Fariseus, em Israel, ou aos escribas, no Antigo Egipto, cabia aos brâmanes o papel cultural nas alturas do exotismo indiano. Numa sociedade de castas, em que a função - social, cultural e económica - era determinada pele nascimento, era a esta classe que competia a manutenção da tradição e as responsabilidades religiosas de uma tradição oriental mística e profunda. Infelizmente, aos brâmanes lusos faltam a mística, e a profundidade; a sua acção não reside na legitimidade imemorial das suas tradições mas sim no interesse muito presente em não mudar as coisas - vulgo sistema - por ser este aquele que melhor convém ao estatismo, ao nacional-porreirismo.

Perdoem: a única réstia de mística que possuem são pequenos lembretes em formas pouco cabais que adaptam a adornos do pulso e apelidam de moda, e de adaptabilidade aos tempos modernos. Tais amuletos trazem sorte e protecção, e a nossa (pelo menos a minha) imaginação remete logo para o fabrico de um tal amuleto do tamanho do Estado que lhe trouxesse a tal sorte e protecção para que não estivesse a agonizar, e todos os elementos de Estado portassem uma dessas coisinhas em forma de pulseira.

Mas a questão é outra: são os brâmanes portugueses. Esses incansáveis guardadores de rebanhos e do sistema. E quais as suas armas? Um cajado? Livros? Análise profunda e perspicaz das tradições, da Lei, do Livro, das realidades que nos envolvem e que circunscrevem, numa aliança profunda com o Arquitecto Supremo do Universo? Não são frades, infelizmente são barões: barões que apenas usam como instrumento, na sua função de brâmanes, o tacho, o favor e o voto. Quanto ao tacho e ao favor, é triste a degradação pessoal dos ofícios de cozinheiro e de troca de favores - de mana e hau - que mantém o bom funcionamento e confiança; quanto ao voto, é simplesmente vergonhosa e lamentável a utilização de uma expressão de igualdade conquistada a custos tremendos para um acto de perversão da democracia e do sentido de responsabilidade do Estado e seus órgãos para com a sociedade.

Sabemos, então, do que vamos falar... dos brâmanes - iluminados com cajados para conduzir o povo - lusos - já menos iluminados mas com traços de exotismo conferidos por ornamentos - munidos não da Lei mas do Voto, do Tacho, e outras armas desprovidas de legitimidade.

A crítica é curta e faz-se por si! Não parece necessário lembrar as operetas e os camarotes em que estes brâmanes transfiguraram Portugal, nem tão pouco as suas promessas com que se atira areia aos olhos. Mas sim, é plausível falar de desrespeito pelas instituições democráticas, da caça ao voto e da infâmia que se faz correr, lavando a roupa suja na praça pública como se de lavadeiras românticas se tratasse... estes brâmanes, cuja real tarefa deveria ser a de políticos conduzindo os interesses do país, em estreita colaboração com a sociedade, usando, para tal o Estado e as competências próprias - não decididas em campanhas tolas mas sim pensadas por mentes brilhantes - na prossecução do bem comum; estes brâmanes, mais preocupados com modas e festas do que com as situações pendentes, nem são brâmanes nem são nada. São simplesmente a vergonha nacional a que chegamos... e o resto da crítica faz-se por si...

Por último... a propósito do tacho e do voto e da vergonha nacional... há quem confunda sociedade com Estado e diga que são a mesma coisa, mas não são. Estado, aparte qualquer discussão doutrinária que coloque os limites mais além ou mais além, não é a Sociedade, antes a conforma, regula e engloba, ao mesmo tempo que é por ela legitimado. E, a este propósito, e entendendo estritamente Estado como governo e administração, disse-se uma vez que os povos têm os governos que merecem. Assim, nós, portugueses, temos nos brâmanes a perfeita expressão do imperfeito governo que merecemos pela imperfeita sociedade que somos. No entanto, no entanto... disse também alguém que Portugal somente necessitava de bons governantes, porque é povo assaz laborador. Daqui se depreende que, perdoem a expressão: às malvas quem pense que Portugal é um país de serventes para a Europa, ou quem pense que o povo tem o que merece!, o povo não tem o que merece... o Povo merece mais...

Acabo esta curta crítica, em que se falou mais do que se criticou, com pequenos alertas... não querendo ser apocalíptico, nem incorrer nos exageros que parecem ser tão moda hoje em dia, apenas alerto: aos brâmanes, que passam a vida a passear-se de um lado para o outro, com os seus artefactos exóticos e os seus ouvidos prontos a colher e bocas prontas a desdizer, que o povo, o tal povo que não merece, está atento!... e tal como na Índia e em Israel, com os brâmanes autênticos e com os fariseus, também os nossos barões cairão... isto porque o povo não anda cego, ou não ainda totalmente... mas, enfim!, quanto a opções estéticas, nada se pode contra os adornos exóticos que ostentam estes brâmanes... quanto ao resto... a crítica faz-se por si!


         António Honório

16-02-2005
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