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Edição Nº 214 Director: Mário Lopes Sexta, 26 de Outubro de 2018
Opinião
Os Maias voltam à escola
  
             Fleming de Oliveira
Tenho que começar por fazer uma declaração de interesses. Eça de Queiroz é, para mim, o grande romancista, e OS MAIAS a sua obra-prima. Ainda nos meus tempos de estudante pré-universitário, “devorei” OS MAIAS, não apenas por obrigação, mas por devoção. Admito que, para isso, tenham contribuído os meus Pais, que dispunham em casa de uma boa biblioteca (que felizmente herdei em parte), e que fomentavam nos filhos a necessidade de conhecer o que de bom e fundamental, existe na nossa cultura. Quando tive lições de literatura com o Professor Óscar Lopes, recordo como me salientava a qualidade dos textos queirosianos e a sua relevância para se saber escrever um bom português.

   Como já tenho dito e escrito, pertenço a uma geração hoje considerada “inabilitada”, do tempo em que se aprendiam as linhas de caminho-de-ferro (apeadeiros e ramais), a ter boa caligrafia, as serras e rios (e afluentes), os Reis de Portugal, não havia vergonha da nossa História (Trágico-Marítima), se lia Camões, tinha 2 anos de latim (para quem pretendesse seguir o ramo das Humanidades), não havia máquinas de calcular (muito menos computadores), e que escrever bem era um atributo muitíssimo importante para entrar e prosseguir no ensino superior, no meu caso, a Faculdade de Direito.

   Mas hoje tenho visto Colegas e Magistrados, sem dúvida juridicamente sabedores, cujo escrito não será (muito) melhor do que o do meu neto de 16 anos, sem ofensa para este.

   A obra OS MAIAS não vai, afinal, desaparecer da lista de leitura para o ensino secundário, como o Ministério da Educação/ME chegou a propor!!!

   As chamadas aprendizagens essenciais vão ser aplicadas, num processo que começará, no caso do secundário, pelo 10.º ano. Para o ME, se bem percebi, a definição destas aprendizagens, que esteve principalmente a cargo das Associações de Professores (conheço mesmo uma professora, que ainda dará aulas por mais uns cinco anos e que diz que não ensina Camilo, pois já não estamos em tempo de “amores de perdição ou salvação”), é necessária para resolver o problema da “extensão” dos atuais programas e permitir que seja fixado um “conjunto essencial de conteúdos” que os alunos devem saber em cada disciplina.

   Na anterior versão do ME, os documentos propostos para a disciplina de Português, omitiam as obras de Eça de Queirós que deveriam ser lidas no secundário, “referindo apenas que os alunos teriam de ler um livro deste autor”.

   O programa da disciplina, que se encontrava em vigor, determina que a abordagem a Eça de Queirós, incluída na matéria do 11.º ano, passa pela leitura de OS MAIAS ou A ILUSTRE CASA DE RAMIRES.

   A supressão de OS MAIAS na versão inicial apresentada do ME, deu origem a um coro de protestos de académicos, pessoas cultas, e professores, todos eles “inabilitados”.
Não foi apenas em relação a Eça que o ME recuou. Nas listas de leitura apresentadas para o 10.º, 11.º e 12.º ano, voltam a ser inscritas as obras de Almeida Garrett (o “teatral” FREI LUÍS DE SOUSA, Alexandre Herculano (O MONGE DE CISTER) e Camilo Castelo Branco (os démodés amores de salvação e perdição), que tinham desaparecido da versão inicial das aprendizagens essenciais, onde foram substituídas por “escolher um romance” de um destes três autores. Interrogo-me que romance camiliano aquela Senhora Professora vai escolher…

   A Presidente da Associação de Professores de Português, justificou esta opção, com “a necessidade de diminuir o número de obras propostas para leitura”, se permitir “o alargamento das opções que podem ser tomadas pelos docentes”, a quem ficaria entregue a escolha dos livros que os alunos deveriam ler.

   Também no 12.º ano, o ME desistiu de retirar a abordagem ao conto, enquanto género literário. Na lista de leitura para este ano voltam a estar incluídos contos de Manuel da Fonseca, Maria Judite de Carvalho e Mário de Carvalho, que muito aprecio. Nunca me assumi como uma pessoa especialmente preparada para emitir opiniões nesta matéria, por isso subscrevo ser "uma opção desejável, até por se tratar de um género breve que os jovens nas sociedades de hoje privilegiam como é possível constatar na blogosfera onde narrativas breves e micronarrativas ocupam lugar de relevo”.

   O ensino da literatura no nosso ensino secundário morreu há muito tempo!
O medo, o comodismo, a falta de cultura literária (mesmo de alguns “docentes” como referi), os exames nacionais, o ensino “sebenteiro” deram cabo do gosto pela leitura.
O ME assiste impávido e sereno a este enterro, piscando à direita e à esquerda, sorrindo de soslaio para uma corte de acríticos que seguem atrás do “defunto”.

   Se o facto de permitir/” impor” que Os Maias sejam lidos na Escola, tudo bem, embora haja coisas que quando se tornam oficializadas ou obrigatórias desenvolvem um efeito perverso ..., pelo que gostaria muito mais que a leitura decorresse de um gosto cultivado. É bom salientar quando o bom senso prevalece. Mas ainda bem que houve toda esta dinâmica.

   Claro que o português terá liberdade para ao longo da vida ir escolhendo as suas leituras (10% dos alunos do ensino secundário nunca leram um livro do princípio ao fim, e os pais, como é usual dizerem, não têm tempo para essas “futilidades” …) mas, para base do ensino secundário, aconselharia que a escolha não fosse volátil.

   Fleming de Oliveira
26-10-2018
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