Por Francisco Ortega (Museu do Jurássico de Astúrias), Pedro Dantas (Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa) e colaboradores*
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| Em cima: José M.l Gasulla, Fernando Escaso, Graça Ramalheiro e Elisabete Malafaia. Em baixo: Pedro Dantas, Francisco Ortega e Bruno Ribeiro (Foto: Fernando Barriga-MNHN) |
A jazida de Andrés (Jurássico Superior, Pombal) afigura-se como um dos enclaves mais interessantes e promissores da paleontologia de vertebrados da Europa. Em 1988, a betonização de um armazém de alfaias agrícolas na pequena localidade de Andrés foi interrompida pela descoberta de uma colecção de pedras negras que contrastavam com os tons claros amarelos, verdes e cinzentos da rocha. "São ossos", deve ter pensado o dono do terreno, José Amorim, quando notificou a sua descoberta ao Serviço Regional de Arqueologia da Zona Centro.
Uma equipa do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa (MNHM) deslocou-se então com urgência ao local para avaliar a descoberta e, depois de reconhecer que se tratava de restos dos fósseis de um grande dinossauro carnívoro que viveu no Jurássico Superior (há uns 148-155 milhões de anos), realizou uma primeira escavação.
Uma vez isolado, estabilizado e documentado, os restos permaneceram nos fundos do MNHN durante mais de 10 anos, até que, em 1999, um primeiro estudo provocou uma primeira surpresa: os fósseis pertenciam a uma das espécies de dinossauros carnívoros mais conhecidas: Allosaurus fragilis. Este dinossauro é, juntamente com os tiranosauros do Cretácio Superior, um dos representantes mais emblemáticos dos grandes predadores do Mesozóico e, provavelmente, um dos dinossauros mais populares.
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| Reconstrução do aspecto em vida de um casal de Allosaurus (Foto: Raúl Martín) |
De facto, embora provavelmente sem o reconhecer pelo nome com que Othniel Charles Marsh o baptizou em 1877, todos estamos familiarizados com este caçador bípede e robusto, de crânio grande, onde são salientes duas pequenas proeminências com a forma de pequenos cornos, situados acima dos olhos. Depois da descoberta dos primeiros exemplares de Allosaurus na segunda metade do séc. XIX, foram isolados milhares de restos nas célebres jazidas da formação Morrison da América do Norte (Colorado, Montana, Wyoming, Dakota do Sul, Oklahoma, Novo México e Utah), mas nunca se tinha encontrado nenhum exemplar fora do continente americano.
A notícia, publicada por investigadores portugueses, espanhóis e norte-americanos na revista britânica Journal of the Geological Society, deu a volta ao mundo paleontológico. O exemplar de Andrés adquiriu rapidamente relevância nos meios de comunicação social, não em vão, pois trata-se da primeira espécie de dinossauro que é identificada em dois continentes diferentes e, como ocorre com os exemplares únicos, foi informalmente baptizado com o nome de "Alice", como resposta ao "Big Al", um enorme e célebre alossauro de mais de oito metros escavado em 1991 no estado de Wyoming (Estados Unidos).
A descoberta de Alice oferece, também, transcendência científica, já que a sua presença em Portugal obriga a reconsiderar alguns conceitos, provavelmente bem enraizados, tanto sobre a abertura do Atlântico norte como sobre a biologia dos grandes dinossauros carnívoros. O Jurássico Superior, e mais concretamente, o período de tempo em que se depositaram os restos de Alice, constitui um momento crítico na separação das faunas da Europa e América do Norte. Lentamente, e de sul a norte, um braço de mar foi separando ambos os continentes partindo as populações de organismos que, desde esse momento, tiveram histórias independentes.
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| Processo de extracção de restos de Allosaurus |
A presença de Alice em Andrés, se, por um lado, confirmava a pertença ao Allosaurus fragilis, só podia ser explicada se a costa da América do Norte e da Península Ibérica estivessem ainda em contacto até há 148-155 milhões de anos (época em que se supõe que o Atlântico já estava aberto), ou se, pelo menos, o braço de mar existente entre ambas era, de alguma forma, habitável para um grande dinossauro carnívoro.
Alice viria a somar-se, como um elemento singular, a um conjunto de provas que começavam a questionar as relações entre as faunas portuguesas e norte-americanas durante o Jurássico Superior, as quais não podiam ser contestadas sem uma infra-estrutura suficiente. Nesse contexto, começou a desenvolver-se um ambicioso projecto de investigação para o estudo dos restos de dinossauros do Mesozóico português, que será liderado pelo Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Entre os objectivos do projecto encontrava-se a formação de uma equipa de investigação preparada para estudar para a evolução dos restos de vertebrados do Jurássico Superior português e desenvolver uma infra-estrutura mínima para que os estudos se pudessem realizar.
Nesse sentido, nos últimos anos, multiplicaram-se as actuações de uma equipe composta por investigadores e alunos dependentes de instituições espanholas e portuguesas, como o Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, o Museu do Jurássico das Astúrias, a Universidade Autónoma de Madrid ou a Associação Leonel Trindade, de Torres Vedras, e produziram-se avanços importantes, como o arranque do Laboratório de História Natural da Batalha sob a coordenação cientifica do MNHN, que equipou o projecto com as valências técnicas necessárias para poder preparar grandes exemplares e avançar com novas escavações.
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| Um dos ossos portadores de dentes da mandíbula de Allosaurus escavado en Andrés |
Estabelecida uma infra-estrutura material e humana suficiente para tratar estes projectos, e com a equipa a mover-se em distintas jazidas do Jurássico Superior de Portugal (sobretudo em Casal Novo, na Batalha, e Cambelas, em Torres Vedras) iniciou-se a reanálise da situação de Alice.
Para avançar com a hipótese de que o Atlântico seria transitável para alguns dinossauros de há 148-155 milhões de anos, tínhamos de estar seguros de que Alice pertencia à espécie Allosauros fragilis. A evidência disponível assim o indicava, mas era possível confirmar ainda mais esta hipótese trabalhando o material inédito da escavação de 1988. Durante alguns meses, parte dos recursos do projecto destinaram-se a preparar este material, mas, à medida que o trabalho avançava, a sensação de que a resposta a muitas das incógnitas resultantes do aparecimento deste dinossauro ainda se encontrava na jazida foi crescendo na equipa: era preciso voltar a Andrés.
Neste caso, a obtenção de apoios locais para reabrir a escavação foi muito mais fácil que o habitual: A história de Alice estava muito arraigada em Santiago de Litém (o emblema do Dino Clube Desporto e Cultura local é um dinossauro) e, por isso, o envolvimento da Junta de Freguesia, com o seu presidente Guilherme Gameiro à cabeça, resultou num dos apoios mais entusiastas a este projecto. Desta forma, tudo ficou pronto para que, em Junho de 2005, começasse a segunda fase da escavação de Alice.
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| Crânio de um rincocéfalo recolhido em Andrés |
O afloramento é pequeno, situando-se por detrás de algumas casas que o separam da única rua que atravessa Andrés. Se a reconstituição da estrutura da jazida a partir da informação obtida em 1988 fosse boa, parte de Alice devia estar ainda ali. Nas primeiras horas de trabalho, não havia nada na superfície da rocha que justificasse que estávamos certos, mas, rapidamente, todas as dúvidas se dissiparam: localizou-se o primeiro dente de Allosaurus, depois as primeiras vértebras e, por fim, horas depois, começaram a aparecer os restos do crânio de Alice. Pouco a pouco, ao longo de quatro semanas de trabalho distribuídas em duas fases, conseguiu-se recolher e documentar o conjunto de ossos cranianos do indivíduo mais completo registado nos arquivos portugueses.
O primeiro objectivo estava cumprido: conseguir provas suficientes para comprovar que se tratava de Alice e, no caso da hipótese do dinossauro pertencer ao Allosaurus fragilis ficar fortalecida, conferir agora com muito mais informação do que a que se encontrava disponível em 1999, como ocorria o intercâmbio de fauna entre os continentes que ainda não eram independentes.
Mas Andrés ainda guardava outras surpresas. A jazida, abordada agora sem a urgência de 1988 e com outra metodologia, resultou muito mais completa do que estava previsto inicialmente. Para começar, Alice não estava só. Os restos de uma segunda cintura pélvica indicavam que pelo menos outro alossáurio de tamanho semelhante estava representado na jazida.
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| Processo de extracção de restos de Allosaurus (Foto: Fernando Barriga - MNHN) |
Por outro lado, o leito do canal em que ficou depositada Alice tem facilitado abundantes informações sobre a composição da fauna e flora que habitaram o mesmo ecossistema. Foram recolhidos muitos restos de plantas, icnofósseis de invertebrados, moluscos de água doce (gastrópodos e bivalves), peixes holósteos (provavelmente próximos do tipo Lepidotes), abundantes restos de pequenos anfíbios , restos de crocodilos de características modernas, dentes que são atribuídos a pterosauros e uma ampla diversidade de dinossauros que inclui quase uma dezena de formas distintas de dinossauros terópodes, aurópodes e ornitópodes.
Depois de tudo isto, uma nova surpresa: foram encontrados abundantes restos de rinocéfalos (entre eles um crânio completo e várias mandíbulas) que constituem o único destes animais na Península Ibérica. Os rinocéfalos são um grupo de pequenos répteis que estão hoje representados unicamente por Sphenodon (o tuatara da Nova Zelândia), mas que também acompanhavam os dinossauros na formação Morrison. Ainda não sabemos de que espécie se trata ( apesar do trabalho de recuperação se iniciar em breve), mas se se comprovar que o pequeno rinocéfalo de Andrés pertence a uma das forma conhecidas no Jurássico Superior dos Estados Unidos, estaremos diante de um importante reforço da hipótese que, neste momento, está por detrás de Alice.
A diversidade representada em Andrés é muito maior que a habitual neste tipo de jazidas. Com efeito, depois da jazida clássica de Guimarota, em Leiria, nenhuma outra propiciou uma diversidade de organismos comparáveis no Jurássico continental Ibérico, e, até ao momento, nem forneceu conjuntos cranianos de répteis mesozóicos comparáveis ao de Andrés. As características da jazida fazem com que o projeto de escavações em Andrés ainda não seja dado como fechado e presumem que, à medida que se vá produzindo a publicação das análises dos achados, Andrés se converta numa das referências mais importantes do Jurássico Superior ibérico.
*Francisco Ortega (Museo del Jurásico de Asturias) e Pedro Dantas (Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa) com colaboração (por ordem alfabética) de Fernando Escaso, Mauro García-Oliva, José Miguel Gasulla, Ivan Gromicho, Elisabete Malafaia, Graça Ramalheiro, Bruno Ribeiro e Jesús Santamaría.
Agradecimentos: o trabalho realizado em Andrés não poderia ser realizado sem a colaboração da Câmara Municipal de Pombal, Junta de Freguesía de Santiago de Litém (tanto do presidente, Guilherme Gameiro, como dos trabalhadores e vizinhos) e quadros do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa (especialmente a participação dos directores envolvidos no processo: A.M Galopim de Carvalho e Fernando Barriga).
Nota: texto traduzido do Espanhol por Marta Monteiro e Mário Lopes