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Edição Nº 38 Director: Mário Lopes Quarta, 17 de Dezembro de 2003
David Pinto & Companhia Limitada
Cinco irmãos valorizam ginja de Alcobaça

 Vasco e Mário João Gomes

A ginja de Alcobaça é um licor produzido pela empresa David Pinto & Companhia Limitada, uma empresa familiar dirigida por 5 irmãos que pretende preservar e valorizar um dos ex-libris da cidade de Cister, outrora um dos maiores centros da glutonaria europeia, famosa pelos seus doces conventuais e licores. A aposta dos irmãos Gomes dirige-se agora para o aumento da área de cultivo das ginjeiras, uma árvore que tem vindo a desaparecer diante do uso generalizado de pesticidas.

Vasco Gomes, o nosso interlocutor nesta entrevista, é um dos jovens sócios-gerentes desta empresa familiar que, recentemente, esteve presente na V Mostra de Doces Conventuais de Alcobaça.

TINTA FRESCA- Como vai a David Pinto & Companhia Limitada?
VASCO GOMES - A empresa, neste momento, é uma empresa artesanal e, como todas as empresas artesanais e de microdimensão, passa dificuldades. A nossa tem mais dificuldades porque se destina a produzir um único produto que é o Licor de ginja MSR, o qual está muito dependente da produção agrícola do fruto. Ou seja, se S. Pedro não for generoso connosco, isso repercute-se no final da produção do licor.

Como a ginja sempre foi olhada como uma produção marginal na agricultura, as pessoas pura e simplesmente abandonaram-na em detrimento de outras produções que pudessem garantir eventualmente maior quantidade, o que, no entanto, não significa necessariamente mais lucro. A nossa empresa está empenhada em desenvolver uma vertente agrícola e já a iniciou, não para sermos auto-suficientes em fruto, mas, pelo menos, para incentivar outros agricultores a enveredar pelo mesmo caminho, porque infelizmente neste País a agricultura faz-se por cópia...

TINTA FRESCA- É viável ser agricultor nesta área da ginja?
VASCO GOMES - A questão da viabilidade está a ser estudada, porque o nosso projecto, pelo menos em termos nacionais, é pioneiro. Nunca tinha sido feito nada de forma ordenada, metódica e científica. A nossa empresa tem apoio científico de um organismo com que celebrou um protocolo, para nos orientar ao longo prazo porque este é um percurso de médio e longo prazo e não de curto prazo. Obviamente, os resultados vão ser obtidos daqui a alguns anos e só nessa altura poderemos fazer um balanço da viabilidade da actividade. Contudo, como é óbvio, alguém tinha que dar o primeiro passo.

TINTA FRESCA- Esta ginja é feita só com frutos de Alcobaça?
VASCO GOMES - Sim, embora haja produção de ginja noutras zonas do País, como na Cova da Beira e no noroeste transmontano. Nós fazemos questão, devido à variedade e à localização desta ginja - toda a gente conhece a qualidade dos frutos da região de Alcobaça e da zona Oeste, como o caso da Maçã de Alcobaça e da Pêra Rocha do Bombarral - de consumir única e exclusivamente a fruta dos concelhos da Região Oeste, principalmente, de Alcobaça, Caldas da Rainha e Óbidos. Não utilizamos qualquer fruto de fora da região e muito menos produtos artificiais ou corantes e conservantes. O nosso produto é 100% natural.

TINTA FRESCA- 2003 foi um ano de colheita bom ou mau?
VASCO GOMES - Nestes últimos três anos considero que a colheita tem sido má, devido às condições climatéricas que não têm sido propícias. A ginja é um fruto sensível ao clima, principalmente, na altura da colheita. Se as condições meteorológicas não forem favoráveis, o fruto não vinga e, nestes últimos três anos, não temos tido sorte. Claro que, se aumentarmos a área e o número de árvores de fruto, mesmo num ano mau, obviamente teremos sempre maior quantidade de fruto disponível. E é nesta via que nós estamos a apostar.

Tentamos também em apostar numa agricultura sustentada a nível de agricultura biológica, não usando produtos químicos. O uso de pesticidas foi uma das grandes causas de morte de muitas árvores, pois as ginjeiras eram muito usadas como delimitação dos terrenos agrícolas por ser uma árvore, de certa forma, resistente e rústica. Com o passar dos anos, as pessoas deixaram de utilizar o trabalho manual da foice e da enxada para limpar esses matos que se juntavam nas bordaduras dos terrenos e passaram a utilizar pesticidas. Como a ginja não era a actividade principal dos agricultores, pura e simplesmente queimaram as ginjeiras, condenando-as à morte a médio prazo. Agora temos de começar a fazer a sua reflorestação, vamos ver como vai correr.

TINTA FRESCA- Há quanto tempo existe a marca David Pinto & Companhia Limitada?
VASCO GOMES - Esta marca existe desde a década de 20 do século passado. O modelo da garrafa, o rótulo e a própria marca foram registadas em 1930. Trata-se de uma forma de produção original de um senhor chamado Manuel de Sousa Ribeiro, e daí o nome ginja MSR. Era um técnico enólogo, especialista em vinhos, aguardente, vinagre e espumantes, da região de Alcobaça, residente em Valado dos Frades.

Manuel de Sousa Ribeiro desenvolveu esta ginja por uma questão de carolice, quis dar a provar aos amigos um produto que já era comum na região ser feito com aguardente. Esta é uma tradição muito antiga que, ao que se supõe, saiu das paredes do Mosteiro de Alcobaça. Os monges eram divinos manipuladores do açúcar e, por isso, aproveitando a quantidade de ginjeiras que haveria aqui na altura, desenvolveram esta bebida, a ginja. Também se confeccionavam compotas, que neste momento não são possíveis de fazer, devido à escassez de fruto, assim como não se poderão desenvolver outros produtos de qualidade, pela mesma razão. De qualquer forma, nós vamos sempre apostar na qualidade dos produtos resultantes da fileira da ginja.

TINTA FRESCA- A produção tem dado à volta de quantos litros?
VASCO GOMES - Eu não lhe vou adiantar o número de litros porque isso é um segredo muito bem guardado. No entanto, sabendo a quantidade de frutos que consigo arranjar e a que pode ser produzida nesta região, interrogo-me como é que outras entidades, nomeadamente empresas, conseguem produzir tanta ginja não havendo fruto. É um daqueles mistérios para investigar....

Eu costumo dizer que a nossa produção é limitada ao que a Mãe Natureza nos dá e varia muito, nunca consegue ser igual de ano para ano. A única certeza que eu dou é que nunca em algum ano desperdiçámos um quilo que seja de ginja. Toda a ginja que pudemos arranjar fazemos questão de ficar com ela, infelizmente, seja a que preço for, porque é um preço alto também.

TINTA FRESCA- Se houvesse o dobro ou o triplo da produção conseguiria vender toda a produção?
VASCO GOMES - Perfeitamente, nós costumamos dizer que o nosso produto é um produto de alto valor devido à procura que tem. Inclusivamente, somos forçados todos os anos a fazer um rateio da nossa produção pelos nossos clientes, de forma a que, não sendo muita a quantidade comercializada, pelo menos chegue um pouco a cada um deles e não fique só nas mãos de 3 ou 4 comerciantes que depois a especulam a preços proibitivos.

Este é outro problema que nós temos, apesar dos avisos insistentes e da sensibilização que fazemos junto dos comerciantes a apelar para que não especulem com o preço. A especulação poderá originar surpresas desagradáveis e é preferível ter algumas garrafas para vender a um preço razoável do que nenhuma a um preço elevado.

TINTA FRESCA- Qual foi o vosso grande objectivo quando adquiriram a empresa?
VASCO GOMES - Nós adquirimos esta firma em 1998 e entrámos neste negócio por sermos apreciadores, nunca numa perspectiva de mero negócio. Por sermos apreciadores, quisemos, pelo menos, preservar o último exemplo ainda vivo da enorme e grande tradição que a região de Alcobaça tinha na produção e manuseio de produtos agro-industriais e que, infelizmente, ao longo dos anos se foi perdendo. Como somos ainda pessoas novas, queremos perpetuar este produto tradicional o mais possível. Este é um produto com mais de 90 anos de história e queremos que continue o seu trajecto.


         Mário Lopes

17-12-2003
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