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Edição Nº 52 Director: Mário Lopes Terça, 15 de Fevereiro de 2005
Opinião
Comics americana vs tradição portuguesa no Carnaval nocturno da Benedita... e divagações de uma mente atenta...

 Cristina Gerardo Ferreira

Não é inédito, mas é sempre especial. Todos os anos se realiza no Carnaval um corso nocturno na Benedita, vila sociologicamente noctívaga, da, agora, zona Oeste de Portugal. Este ano, pudemos constatar que dois símbolos de culturas distintas pareciam coexistir bastante amigavelmente.

Edward Nygma, ou se preferirem, E Nygma, a personagem da comic norte americana Batman popularizada por Jim Carrey no Batman Forever de Joel Schumacher, aqui numa versão feminina, não se coibiu de "fazer a festa" com um dos símbolos da tradição portuguesa: o campino ribatejano. Uma coexistência que parece ser o resultado da "aldeia global" (expressão que conferiu notoriedade ao então universitário Marshall McLuhan), em que o mundo se transformou.

Um encontro amigável de culturas numa época de excessos, o Carnaval, ocasião que se pode considerar como uma válvula de escape para a contenção de emoções a que nos obrigamos durante todo o resto do ano. No dia seguinte ao Carnaval, segundo a religião católica, realiza-se, no entanto, uma espécie de purificação para os excessos cometidos, materializada na proibição de ingestão de carne. Mas será esta proibição, nos tempos que correm, realmente um sacrifício?

Dúvidas aparte, algo que certamente será consensual consiste nos tremendos excessos que se cometem nesta época do ano. Não só no que se refere ao álcool, mas também ao dinheiro investido nos desfiles. Um país que um dia esteve de tanga e pretendeu recuperar, mas como o rei das histórias para crianças, parece "ir nu".

Campinos vs polémica das touradas

 Carnaval nocturno da Benedita

Voltando à personagem do campino, aquele que enfrenta o touro sem "armas" parece representar, nesta tão contestada tradição portuguesa, a verdadeira coragem nas lides do touro. É um brincar com os touros genuíno, não fosse o touro já estar ensanguentado, e portanto enfraquecido pelos ferros dos tão "distintos" cavaleiros, sempre cabeça-de-cartaz das touradas, enquanto os bravos campinos são relegados para o plano de "último divertimento da populaça".

Parece, assim, ambígua a minha posição sobre as touradas: como acérrima defensora dos direitos dos animais, pareceria lógico que condenasse mesmo a "brincadeira genuína" das touradas, a pega tradicionalmente portuguesa. A verdade é que, se acerca dos touros de morte e da cobardia daqueles que os atacam em cima de um cavalo munidos de armas afiadas não tenho quaisquer dúvidas na condenação, relativamente aos campinos, penso duas vezes antes de tomar posição. Outra verdade é que o compromisso com determinada posição nunca é fácil, pois a mudança de opinião acarreta sempre críticas por parte dos nossos pares.

Parece-me assim, inevitável a profunda ponderação sobre qualquer assunto antes de tomarmos como nossa determinada teoria. Considero fundamental permanecer numa área "cinzenta" quando concordamos com argumentos de ambos os lados. Leiam-se as palavras de Miguel Sousa Tavares, quando ainda era director da Grande Reportagem: "Estamos agora em plena moda da protecção aos animais - uma piedosa expressão por trás da qual se escondem, algumas vezes, apenas manifestações de uma intolerância moralista mais abrangente. (...) se proibirmos a morte do touro anual de Barrancos (excepção que o Governo abriria mais tarde), o que devemos fazer à tradicional e bárbara cerimónia da matança do porco - não um, mas milhares deles, em todo o país, todos os anos?".

Se não deixa de ser verdade que os touros de morte consistem numa exposição bárbara da morte de um animal para gáudio do povo, o facto é que tal polémica deixou de ser uma discussão racional entre duas partes divergentes para passar a ser a defesa irracional de posições extremas. A verdade é que, na nossa sociedade, o extremar de posições se tem vindo cada vez a acentuar mais.

Posições extremas vs realidade cinzenta

O extremar de posições leva-nos muitas vezes à velha história do herói contra o vilão. Uma dicotomia geralmente utilizada como forma de propaganda pelas autoridades governamentais, como aconteceu no passado e continua a acontecer, quando se justificam ofensivas militares como "a guerra do bem contra o mal". Como se o mundo fosse apenas um conto para crianças, onde só existem personagens boas e más. Os bons são sempre bons e os maus sempre maus. No final, as forças do bem saem vitoriosas e os vilões são castigados. Uma lógica linear que não se adequa à realidade onde não existe somente o preto e o branco. Uma realidade muitas vezes cinzenta.


Cristina Gerardo Ferreira

15-02-2005
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