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Edição Nº 101 Director: Mário Lopes Segunda, 16 de Fevereiro de 2009
Editorial
Olhai os Lírios do Campo
   


Mário Lopes

Este título do livro do escritor brasileiro Érico Veríssimo, de 1938, não podia ser mais apropriado para a época de crise económica que atravessamos e que a quase todos angustia. Como diria lucidamente outro grande escritor, o nosso Manuel da Fonseca, “quem é completamente feliz é estúpido”, uma vez que se alheia do mundo que o rodeia. E se a frase faz todo o sentido em época de abundância, por maioria de razão adquire renovado significado em dias de vacas magras. A presença de jornalistas à porta das fábricas é hoje um prenúncio da morte de mais uma empresa e de dezenas ou centenas de sonhos interrompidos. 

   Contudo, é nos momentos mais dificeis que também mais precisamos de serenidade, cabeça fria e criatividade. Por isso, indico aqui algumas medidas práticas de boa gestão dos orçamentos familiares e outros tantos conselhos para ajudar a ultrapassar a famigerada crise económica, na esperança de poder ser útil, pelo menos, a algumas pessoas. Apesar de serem medidas elementares, nunca é demais recordá-las, num mundo submerso pelos apelos ao consumo.

1 - As despesas não devem, em caso algum, exceder os proveitos mensais. O crédito ao consumo é, por norma, uma má solução, que se paga caro a prazo. Por isso, o crédito deve ser usado criteriosamente e em último recurso e com o menor prazo possível.

2- As receitas são previsíveis, as despesas não. Há sempre mais uma conta inesperada com que devemos contar. Por isso, o orçamento mensal não deve ultrpassar 90% das despesas previsíveis. Os outros 10% devem ficar reservados para as despesas inesperadas: de saúde, um electrodoméstico que se avaria e tem de ser substituído, uma avaria no carro, um compromiso social a que não se pode faltar e que exige despesa em roupa ou prendas, etc. Se por acaso, essa verba não for utilizada num mês, deve reforçar o orçamento do mês seguinte, porque, seguramente, irá ser necessária, mais mês menos mês.

3- As despesas fixas devem ser reduzidas ao mínimo. A conta do gás e da água podem ser reduzidas substancialmente se os banhos não ultrapassarem 10 minutos. A lavagem manual da loiça deve ser feita num recipiente e não com água corrente. Ao fim de 30 dias, a poupança de água e gás será significativa.

No que diz respeito à electricidade, pode conseguir-se uma poupança significativa calafetando, com pouco dinheiro, portas e janelas. Quem não tem vidros duplos, pode colocar película plástica adesiva nas janelas. O plástico é isolador de calor e evita que uma boa parte do calor gerado em casa saia para o exterior. O chão de casa deve ser em madeira ou cerâmica refractária, de forma a não consumir o calor gerado dentro de casa. Tapetes ou alcatifa também ajudam a conservar o calor em casa. Abra as janelas de casa quando o sol bater nelas e feche-as quando não houver sol. Não se esqueça que o calor do sol é de graça e ainda beneficiará com o arejamento da casa.

A conta telefónica pode ser bastante reduzida pesquisando quais as operadoras com tarifas mais baixas e utilizando os programas de voz da Internet. São gratuitos, mesmo para chamadas internacionais. Dá algum trabalho pesquisar a informação, mas vale a pena.

3- A distância casa-emprego é determinante na poupança de combustível para quem usa automóvel nas suas deslocações. Uma distância de 10 quilómetros significa 20 quilómetros diários, vezes 22 dias úteis, representa 440 km mensais, ou seja, em média 50 euros por mês. Se mora a 20 km do emprego, multiplique este valor por dois, se mora a 30 km multiplique por três... Naturalmente, um automóvel com um baixo consumo é também determinante nos dias que correm.

4- Poupar é um bom hábito e para todos, sem excepção. Quem menos ganha é quem mais necessidade tem de poupar, porque está mais desprotegido face a imprevistos e pode poupar menos. E vale sempre a pena poupar, mesmo pouco por mês, basta ter autodisciplina para colocar algum dinheiro de lado no início do mês. Afinal, ao fim de um ano a poupança mensal multiplicou-se por 14... Dará, pelo menos, para enfrentar uma situação imprevista no ano seguinte.

5- Perder o emprego é, geralmente, um factor de grande stresse porque coloca em risco a sobrevivência das pessoas. Quem beneficia de subsídio de desemprego, poderá sobreviver razoavelmente, se não estiver apenas a ganhar o salário mínimo, durante um ou dois anos. Contudo, para quem não tem direito a ele, o panorama poderá ser muito difícil se não tiver a ajuda de familiares ou amigos. Nestes casos dramáticos, nada mais resta senão recorrer à ajuda das instituições de solidariedade social, que poderão providenciar mensalmente um cabaz de alimentos e roupa gratuitamente.

6- Para os desempregados (e não só) que puderem, a melhoria do nível de formação é sempre uma boa opção. Se é difícil uma pessoa com formação arranjar emprego, sem formação a tarefa afigura-se muito mais difícil. E há que tirar partido do tempo livre para o rentabilizar.

7- No caso dos empresários, uma das regras de ouro da sobrevivência é, actuamente, a precaução com os pagamentos dos clientes. Seguramente, os empresários não passaram a ser maus com a crise e não deixaram de honrar os seus compromissos porque querem. Por regra, não pagam porque não podem pagar, uma vez que os seus clientes também não lhe pagaram, pelo menos a tempo e horas. E quem não toma precauções corre o risco de, arrastado nesta cadeia de incumprimentos sucessivos, ter de fechar a sua empresa por não receber a tempo e não poder pagar, nomeadamente, os salários aos seus trabalhadores.

8- As notícias da crise económica deprimem, mas não vale a pena desligar a televisão ou não ler jornais. Seguramente, a economia irá melhorar, mais ano menos ano, afinal, esta não foi a primeira crise nem será a última. Há que relativizar a situação, sabendo que as economias são cíclicas e,como nas bolsas, alternam entre fases de depressão e euforia.

9- O inferno são os outros. Conviver com as pessoas certas é uma arte e não são necessariamente as que estão ao nosso lado diariamente, mesmo que se digam amigas e nos dêm palmadinhas nas costas. Manter a distância suficiente de pessoas negativas, sejam elas conhecidas, amigas ou familiares, é tão importante como ter amigos. Comprendemos que haja gente com razões para estar de mal com o mundo, mas seguramente não temos de ser nós a carregar esse fardo. Já nos basta a crise, os pessimistas militantes que nos desculpem, mas não são boa companhia..

10- Vale a pena manter a normalidade e não deixar que a crise ofusque esse fantástico milagre que é viver. A Natureza à nossa volta, se olharmos com atenção, deve ser motivo de deslumbramento. O nascer ou o pôr-do-sol, o calor das tardes de Inverno, as formas da Lua, Vénus a espreitar atrevidamente ao início da noite, os prados verdejantes que agora podemos contemplar, os belos lugares que ainda não conhecemos ou que reencontramos e a nossa gastronomia podem e devem continuar a ser usufruídos por todos nós. Apesar da crise, olhemos os lírios do campo.

   Mário Lopes




16-02-2009
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Comentário de Glaucia Pena
14-03-2009 às 15:18
Uma análise clara do momento em que o mundo está enfrentando. Adorei as dicas. Orientações preciosas que valem para toda a vida. E o mais importante: são positivas! Parabéns!
Comentário de Rui
14-03-2009 às 01:07
Eu faço minhas também as palavras do António Miranda. Obrigado.
Comentário de Patrícia Silva
12-03-2009 às 09:38
Sábias e intemporais palavras, a todos os niveis, concordo plenamente, especialmente nos ultimos três pontos. Só desejava que este jornal, fosse impresso. Para que mais pessoas pudessem ter acesso, a tão inteligentes palavras. Porque eu adoro ler, mas sou extremanente crítica, ao que leio. mas fico feliz sempre que me deparo com mensagens tão inteligentes e positivas. Obrigada
Comentário de ANTÓNIO MIRANDA
01-03-2009 às 17:06
Queria dar os meus parabéns, pois ninguém "pintou" tão bem o quadro da nossa educação actual, como o Mário Lopes, em "A Educação, a bateria e a especialização". Obrigado!
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