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Edição Nº 38 Director: Mário Lopes Segunda, 15 de Dezembro de 2003
Júlio Órfão
“Quem terminou a Sala do Capítulo do Mosteiro foi David Huguet e não Afonso Domingues”

 Mosteiro da Batalha

Júlio Órfão, director do Mosteiro da Batalha, revela aqui alguns dos segredos e lendas deste monumento Património da Humanidade. Damião de Gois esteve preso na Batalha? O Mestre Afonso Domingues morreu debaixo da abóboda da Sala do Capítulo? Qual o papel de James Murphy, William Beckford ou Frei Bartolomeu dos Mártires na Batalha? E quais foram os ataques que o Mosteiro de Santa Maria da Vitória sofreu ao longo da sua história? Confira tudo aqui.

TINTA FRESCA - Damião de Gois esteve preso no Mosteiro da Batalha?
JÚLIO ÓRFÃO - Há sempre notícias de pessoas que avançam com algumas novidades, relativamente à presença de pessoas ilustres na vida do mosteiro, quer tenham permanecido cá algum tempo quer tenham apenas passado por aqui. No nosso arquivo não temos qualquer documentação que nos prove a passagem de Damião de Gois, embora haja historiadores, que nos merecem o maior crédito, caso do Dr. Saul António Gomes, que nos seus estudos apresenta a passagem do Damião de Gois pelo Mosteiro, quase numa situação de castigo. Mais tarde, também o Cardeal Saraiva esteve aqui numa situação quase de deportação e temos mesmo documentação da passagem dele aqui e não no que respeita ao Damião de Gois.

Aliás, passaram pela Batalha pessoas extremamente importantes que deixaram obra. Estou-me a referir, por exemplo, a William Beckford que passou pela Batalha e por Alcobaça; a James Murphy, que passou também pela Batalha e que é ainda o autor do único levantamento arquitectónico do Mosteiro e que ainda continua a ser utilizado embora com algumas deficiências; ao próprio Frei Bartolomeu dos Mártires que já foi beatificado e irá ser também canonizado, foi professor aqui, ao longo do século XVI, numa escola teológica bastante afamada.

Portanto, o Mosteiro serviu de passagem, ou mesmo de referência por algum tempo, de pessoas extremamente ilustres, o que prova que o Mosteiro da Batalha ao longo dos séculos teve uma importância fundamental na história da Cultura portuguesa, Cultura que se estende à própria escola batalhina, a nível da divulgação da arte da pedra. Dos estaleiros da Batalha, partiram para todo o País, senão os primeiros mestres, os segundos mestres que iriam acompanhar obras por esse País fora. De qualquer maneira, os saberes radicam aqui nos estaleiros da Batalha.

 Júlio Orfão

TINTA FRESCA - A história do Mestre Afonso Domingos, que terá morrido debaixo da abóboda, ao fim de três dias e três noites para provar que ela não cairia, é mesmo lenda?
JÚLIO ÓRFÃO - Está-se a referir, concretamente, à história da Sala do Capítulo. Sim hoje temos a certeza, até pela documentação e pelos estudos que foram elaborados, que quem terminou aquela estrutura - que é realmente um espanto em termos de engenharia medieval - foi o segundo arquitecto, David Huguet. Ele não era português, talvez catalão, talvez flamengo, o que é verdade é que toda aquela história que o nosso romântico Alexandre Herculano descreve na sua obra "Abóbada", que pretendia realçar os valores da nacionalidade, etc., não passa de uma lenda, porque a história prova que foi o Huguet, o segundo mestre do Mosteiro que terminou aquele espaço e, sobretudo, completou a abóbada.

Aliás, devo acrescentar que embora o Mestre Afonso Domingues tenha sido o primeiro mestre, eventualmente aquele que esboçou o projecto inicial de como se desenvolveria a obra, o que hoje nos resta do monumento, sobretudo os seus espaços que ainda hoje podem ser visitados, a sua construção deve-se fundamentalmente ao Huguet. Estamos a falar do portal principal, estamos a falar da cobertura da igreja, da Capela do Fundador, do Claustro Juanino e das Capelas Imperfeitas, que foram iniciadas por Huguet.

Depois tivemos outros arquitectos que também tiveram a sua importância, concretamente o Mateus Fernandes, por ser o introdutor do Manuelino na Batalha, cuidamos nós que foi o primeiro local onde surgiu o denominado estilo Manuelino; o próprio Fernão de Évora, que se responsabilizou pela construção do Claustro D. Afonso V, um espaço que continua a ser Gótico, mas um Gótico muito mais pobre, tipo mendicante, que perde a exuberância de um Gótico flamejante do Claustro D. João I, etc.

Não sabemos quando é que ele chegou concretamente aqui à Batalha, sabemos quando assumiu o controlo das obras, foi depois de Afonso Domingues ter cegado, cerca de 1401/2, tendo estado depois mais duas dezenas de anos à frente das obras.

TINTA FRESCA - É verdade que o Mosteiro da Batalha esteve para ser vendido, depois da expulsão das ordens religiosas de Portugal, como estaleiro de pedra?
JÚLIO ÓRFÃO - Ao longo da sua história, todos os monumentos sofreram peripécias complicadas que contribuíram muito para a sua degradação. Na Batalha, houve um primeiro passo que foi bastante maléfico que foram as invasões francesas. Estiveram aqui duas vezes, a igreja serviu de cavalariças, o próprio mobiliário da sacristia foi queimado, ainda hoje no chão se pode ver uma grande mancha onde foi feita a fogueira, os túmulos foram violados, foram arrombados à procura de riquezas, foi um grande abalo que o mosteiro teve.

O segundo, ainda no século XIX, foi a extinção das ordens religiosas por Joaquim António de Aguiar, em 1834, que proporcionou que os monumentos ficassem escancarados e fossem vandalizados de toda a maneira e feitio. Honra seja feita às populações de algumas localidades, como Alcobaça e Batalha, que ainda conseguiram segurar algumas coisas e também tiveram a sorte de alguns desses monumentos servirem como igreja paroquial. A Igreja paroquial da Batalha, até porque a Igreja Matriz estava muito danificada, passou a funcionar como igreja paroquial a partir de 1882, o que, de certa forma, a salvaguardou e foi um dos espaços menos beliscados nesses tempos conturbados.

Mosteiro de Santa Maria da Vitória

Em 1910, com a implantação da República, que tinha um carácter anti-clerical bastante forte, apareceu outro tipo de malefícios para o monumento. A implantação da República, levou a que os espaços do Mosteiro fossem ocupados e utilizados com actividades que não tinham nada a ver com a sua função inicial. Aqui na Batalha, o Mosteiro passou a albergar as Finanças, Tesouraria, Escola Primária, Correios, Prisão e a própria Maçonaria teve aqui um espaço, com graves consequências para o monumento, pois muitas vezes essas novas utilizações levaram à adaptação dos espaços para essas utilizações, descaracterizando completamente o monumento.

Por exemplo, se quiséssemos hoje mostrar uma cela a algum visitante seria impossível porque todas desapareceram. Acontece que em alguns períodos conturbados, sobretudo, após 1834, com a venda em hasta pública de muitos bens das ordens religiosas, os próprios monumentos estiveram em risco de ser vendidos. Felizmente, há sempre alguma luz que evita essas situações. No caso da Batalha, o Mosteiro não foi vendido, mas a sua cerca foi vendida em hasta pública.

Recordo-me também da vinda dos chamados retornados de África, em que o Mosteiro da Batalha esteve indicado para acolher aqui no Claustro D. Afonso V os desalojados, o que não aconteceu por causa de uma consciência crítica da altura, com raízes em Coimbra, que alertou que não era a melhor solução para dar a este espaço, porque implicaria novamente reformulações no interior para essa adaptação.

Portanto, não me espanta que de vez em quando haja essas afirmações, muitas delas são verdadeiras porque muitas vezes os nossos monumentos mais significativos só não foram vendidos por mero acaso. De qualquer forma, nunca tive conhecimento de que o Mosteiro da Batalha estivesse alguma vez para ser vendido como estaleiro de pedra. Este monumento nunca foi vendido, sempre pertenceu ao Estado, apenas a Igreja teve um papel depois da extinção das ordens religiosas, não de posse, mas de utilização em proveito das actividades da paróquia.

Mário Lopes

15-12-2003
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