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Edição Nº 5 Director: Mário Lopes Segunda, 13 de Março de 2006
Atelier-Museu João Fragoso
Mestre João Fragoso: "um escultor à frente do seu tempo"

 João Fragoso nos EUA com o seu colega Piero Fenci (foto do catálogo do Museu)

João Fragoso faleceu recentemente, com 87 anos. Para além de um vastíssimo legado artístico, deixa um atelier-museu com o seu nome. A repórter Tinta Fresca, Sónia Santos, falou com a vereadora Maria da Conceição Pereira, que privou de perto com o escultor, para tentar conhecer melhor este talentoso escultor, que atravessou todo o século XX.

 O mestre escultor João Fragoso, como era conhecido, faleceu na madrugada do dia 28 de Dezembro, no Hospital do Desterro, em Lisboa, vítima de doença prolongada. Nasceu nas Caldas da Rainha a 27 de Abril de 1913 e era uma das figuras mais representativas da arte portuguesa das últimas décadas, principalmente na área da escultura. Entre o valioso património que deixou pelo mundo, destaque para o museu-atelier das Caldas da Rainha. Era casado com a escultora Maria Mendonça e não teve filhos.

Vereadora Conceição Pereira: "uma pessoa         demasiado avançada para o seu tempo"

Estudo Para Mar Sem Fim", 1958 

Para Conceição Pereira, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Caldas da Rainha, João Fragoso foi "uma pessoa demasiado avançada para o seu tempo. Era bastante extrovertido e parecia estar sempre distraído. Ás vezes nós falávamos com ele e ele estava a trabalhar e a pensar em muitas coisas. Era também muito alegre. Além disso, foi um bom desportista e tinha um excelente físico, quando era novo".

A vereadora já conhecia João Fragoso, mas a partir de 1987, desde que começaram as conversações para a criação do museu-atelier, o contacto com o escultor passou a ser mais intenso e manter-se-ia até à data do seu desaparecimento". Acerca da personalidade de João Fragoso, a vereadora refere "eu tive a oportunidade de conhecer o mestre António Duarte e o mestre João Fragoso. Eram duas pessoas com um ano de diferença, ambos caldenses, e que estudaram praticamente nas mesmas escolas. No entanto, eram totalmente diferentes como pessoas e até como escultores. O mestre João Fragoso era um homem que tinha um avanço extraordinário em relação ao seu tempo".

Segundo a vereadora "muitas vezes estávamos a falar com ele, mas ele já estava a pensar numa perspectiva totalmente à frente daquilo em que nós estávamos a pensar. Era uma pessoa realmente genial e de um trato excelente. Não se preocupava com coisas que nós normalmente nos preocupamos no dia a dia. Tinha uma forma de estar única, com a qual nós gostávamos muito de lidar".

Conceição Pereira afirma que "quando estávamos com ele, tínhamos a sensação de estar perante um génio". Como escultor, "João Fragoso fazia esculturas em Portugal, que eram depois feitas também na América. Era uma pessoa extremamente avançada para o seu tempo", refere a vereadora.

 Interior do Atelier-Museu

Professor jubilado da Escola de Belas-Artes de Lisboa, pertencia à Academia Nacional de Belas Artes de Lisboa, onde exerceu as funções de vice-presidente. Segundo Conceição Pereira "muitos dos artistas que trabalham connosco conheceram João Fragoso. Alguns foram alunos dele e, mais tarde, colegas".

João Fragoso recebeu dezenas de prémios e distinções ao longo da sua carreira. Entre elas o Oficialato da Ordem de Cristo, a Medalha de Bronze do Ministério da Educação do Brasil, o prémio de Mérito Absoluto do Ministério do Equipamento Social pelo projecto do monumento ao 25 de Abril, em 1985, ou o 1º Prémio de Desenho do Conselho da Europa em Nice, entre outros.

O escultor passava a maior parte do seu tempo em Lisboa, mas segundo a vereadora "vinha muitas vezes às Caldas embora, nestes últimos anos, não viesse com tanta frequência, por razões de saúde".

Para Conceição Pereira, João Fragoso "foi um grande escultor, principalmente porque fez intervenções na área da escultura, muito avançadas em relação às propostas escultóricas da época. Se calhar, causaram alguma polémica e alguma controvérsia, mas colocaram-no como um artista de vanguarda e de grande contemporaneidade. João Fragoso tinha uma forma de estar na escultura que marcou uma época".

 "Estudo Para o Monumento", escultura em bronze

Questionada sobre a forma como o escultor se relacionava com o Estado Novo e a sua reacção ao 25 de Abril, Conceição Pereira refere que "os artistas não se envolvem nesse meios. Nunca foi assunto que abordássemos. Mas claro que, se antes do 25 de Abril, ele vivia em Portugal, tinha de trabalhar para quem encomendava as peças. Se os artistas estavam em Portugal, se viviam e trabalhavam aqui, muitas das encomendas estavam ligadas ao Estado Novo".

Para além de escultura, João Fragoso dedicou-se à cerâmica, pintura, desenho e poesia. Foi um dos introdutores em Portugal do movimento minimal. Entre algumas das suas obras mais famosas, estão o bronze "Mar de Cinco Luas", adquirido para a Cathedral City de Los Angeles e o bronze "Mar Espacial", instalado no lago do parque do Museu José Malhoa, nas Caldas da rainha.

O escultor deixou um vastíssimo espólio espalhado pelo país e pelo estrangeiro, incluindo museus e colecções públicas e privadas.

As várias fases da escultura de João Fragoso

 Exterior do Museu-Atelier João Fragoso

Começando por se assumir como um expressionista, foi nos anos 60 que iniciou a sua carreira no abstracionismo, marcando o seu trajecto com várias fases: a Fase Figurativa, a Fase Mar e a Fase Minimalista, em que demonstrou a sua capacidade para alterar o seu próprio conceito de arte.

Entre 1954 e 1958, o escultor inicia-se na escultura abstracta da chamada Fase Mar, de onde se destacam trabalhos como "Mar sem Fim", esculpido em mármore branco de Estremoz, e que se encontra na área do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian.

As várias exposições que apresentou, nas últimas décadas, revelaram uma faceta, ainda desconhecida do escultor. Depois de 1965, João Fragoso, na sequência da leitura da História Trágico-Marítima e do seu contacto com o litoral, desde a infância, na Nazaré e na Foz do Arelho, passou a construir montagens com madeiras e restos de naufrágios.

Centro de Artes da Caldas da Rainha vai ter quatro museus de escultores caldenses: João Fragoso, António Duarte, Barata Feio e Leopoldo de Almeida

O Atelier-Museu João Fragoso é um museu municipal e está inserido no Centro de Artes, um projecto desenvolvido pela autarquia. Neste momento, o Centro de Artes tem dois espaços museológicos: o Museu António Duarte e o Museu João Fragoso. Na forja, estão dois novos museus: o Museu Barata Feio e o Museu Leopoldo de Almeida. São quatro escultores que caracterizam uma determinada época da escultura portuguesa. Este museus, segundo Conceição Pereira "têm ateliers para as artes e residências para os alunos. Os ateliers estão mais vocacionados para a escultura".

O Museu João Fragoso foi inaugurado em Setembro de 1994, pelo então Presidente da República, Mário Soares. Aqui as obras do escultor encontram-se em exposição permanente. Podem ser admiradas diversas esculturas figurativas e esculturas da denominada Fase Mar, que transmitem a sensação da força do mar. Estas esculturas são executadas em diversos materiais: gesso patinado, bronze, madeira, etc.. Podem ainda ser admiradas uma série de esculturas de arte minimalista, também de temática marinha, construídas a partir de espólios marinhos. O museu dispõe ainda de um espaço para exposições temporárias com obras de outros artistas.

Horário do Museu:
        Segunda à Sexta: 9 - 13h e 14 - 18h.
        Sábados, domingos e feriados: 10 - 13h e 15 - 18h.
        Encerra à terça-feira.
        Entrada gratuita.


       Sónia Santos

13-03-2006
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Comentário de António Cardoso
15-10-2015 às 12:14
Curioso, interesso-me pela escultura, pelos descobrimentos, pelo movimento das plantas nessa época e sempre o mar.
Comentário de António Cardoso
15-10-2015 às 11:38
formação em artes plásticas escultura na FBAUP e frequento o 2º ano de Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público na mesma Faculdade. Paralelamente sou velejador em cruzeiros e homem do mar.
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