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Edição Nº 52 Director: Mário Lopes Quinta, 10 de Fevereiro de 2005
Outra opinião
Inês de Castro, por António Cândido Franco*

Aldinida Medeiros 

Alguns dos artigos de opinião que tenho escrito para o Tinta Fresca tratam do tema Pedro e Inês de Castro, que me é muito caro. O interesse por este tema tem-me levado à leitura de vários romances nos quais o episódio de Inês de Castro assume sempre uma nova forma, pelas lentes da ficção. Dentre eles, Memória de Inês de Castroa Rainha Morta e o Rei Saudade, ambos da autoria de António Cândido Franco.

Sendo este autor grande conhecedor do tema, acredito que suas palavras, nessa entrevista, sejam de muita importância para todos os que também admiram o amor de Pedro e Inês. Desse modo, o espaço do meu artigo de opinião cede lugar, nessa edição do jornal, às sábias e sensíveis opiniões desse escritor, que tão bem soube apreciar a transformar em arte literária o amor de Inês e a saudade de Pedro.

1. O interesse do senhor pelo tema Inês de Castro vem de muito longe. O que motivou tamanho interesse?

Quando era garoto a estrada Lisboa-Porto passava por Alenquer e Alcobaça. Viajei muito por essa estrada com a minha querida mãe, que gostava de se meter à estrada no seu velho volgswagen. Era uma mulher ilustrada, que vivia sozinha comigo e com a mãe dela, a minha avó materna, chamada Maria da Glória. Parei muitas vezes com a minha mãe no centro da vila de Alcobaça, onde comíamos uma arrufada, bebíamos um galão quente e dávamos uma espreitadela ao interior da Igreja.

Habituei-me à história de Inês e Pedro, convivi com os túmulos, pensei que tudo aquilo se acabara de passar dois ou três anos antes da minha chegada ao mundo. Em minha casa, quando a minha mãe era criança, havia um único romance, em vários volumes: Ignez de Castro, de Faustino da Fonseca, que levava a data de 1901. Pertencia ao meu avô materno, Carlos Valeriano, marceneiro e mestre de obras, nascido por volta de 1865 e falecido em 1927, quando a minha mãe, que se chamava Inês, tinha 5 anos.

Deve-se decerto ao choque que o enredo desse livro teve sobre o meu avô o nome que a minha mãe, sua primeira e única filha, veio a ter. Coincidências flagrantes, que me deixam um pouco alarmado diante das reais possibilidades de liberdade que temos frente ao destino. Conservo ainda hoje esse romance, não sei se como talismã, se como curiosidade.

2. Em sua opinião, o que representa o mito de Inês de Castro para a cultura e, especificamente, para a literatura portuguesa?

Inês de Castro é o amor e a beleza; a inocência do mundo e o insuportável rosto da perfeição. Mas ela é também por causa disso o martírio e o sacrifício. Os artistas medievais associaram a vida de Inês à paixão de Jesus e daí os pormenores com que ilustraram a sua arca tumular, em Alcobaça. Inês, pelo grego hagnés, quer dizer a pura, a santa, a casta. Deu no latim agnés, que foi também entendido como derivado de agnus, o cordeiro simbólico. Inês é o anho inocente, que é preciso sacrificar para que o mundo se renove. Mas sem Pedro, que é força da saudade, não havia sequer memória de Inês, que é o amor puro e inefável.

3. Há uma relação de intensa proximidade entre seus escritos literários e a Filosofia? Como o senhor explica isso?

Um texto poético é feito de palavras e as palavras são um composto de letras e espírito. Ora o espírito que há nas palavras transforma naturalmente qualquer texto poético em muito mais que literatura. Esse mais é sabedoria pura ou filosofia.

4. É possível dizer que sua escrita segue a linha saudosista de Teixeira de Pascoaes?

É possível dizer isso, como é possível dizer muitas outras coisas. Sou, por natureza íntima, não por imitação literária, um saudoso; vivi sempre, desde que me lembro, com a saudade à minha beira. O casarão em que cresci em Lisboa, no Largo da Graça, era de uma desolada solidão; viviam lá todos os espectros de um passado que eu já não conheci na realidade mas com o qual muito convivi na minha imaginação. Perdi o meu pai cedo, aos 5 anos, e também aí me habituei, com a minha saudade, a ir ao outro mundo, conviver em imaginação com o seu espectro.

A minha saudade é muito larga, muito antiga, mas depende muito mais da minha própria experiência de vida que de qualquer leitura ou de qualquer influência literária. Mesmo que nunca me tivessem ensinado a ler e a escrever, eu continuaria a ser um saudosista, porque a soidade foi a essência da minha vida de criança e tem sido a essência da minha vida de adulto.

Em Teixeira de Pascoaes encontrei um antepassado próximo, nada mais, mas também nada menos. Trepando por aí acima íamos dar a Curros Enriques, a Eduardo Pondal, a Rosalia de Castro, a Camilo, a Francisco Manuel de Melo, a Camões, a Bernardim e ao próprio rei D. Pedro I, que, sendo neto de Dinis e Isabel, é o pai de todos os modernos saudosistas galego-portugueses e o avô de todos aqueles que nos trópicos falam o português, ou um crioulo dele derivado, e sentem a imensa doçura e o mistério terrível da sôdade ou da sôdadji.

5. Em seu romance Memória de Inês de Castro há uma inovação, pela presença marcante da figura de Teresa Lourenço. O que o senhor diz sobre isso?

Não sei se há essa inovação de que fala. Memória de Inês de Castro é um romance antigo, escrito no sótão do velho casarão da Graça, quando lá vivia sozinho com a minha mãe, em 1987, já depois do falecimento da minha avó materna. Considerei mais tarde, como sabe, essa tentativa frustrada. Assim como assim, já nesse ensaio aquilo que me interessava de verdade era dar voz à saudade de Pedro. A figura de Teresa, que nesse romance se chamava circunstancialmente Fátima, era ou devia ser a personificação do sentimento saudoso de Pedro.

6. Na reescrita e reedição desse romance, agora sob o título A Rainha Morta e o Rei Saudade, várias modificações foram feitas. Além da explicação dada na "Nota Prévia" do livro, a que se deve essa reescrita?

A reescrita (e o termo não chega para dar conta das diferenças entre os dois livros) deve-se à insatisfação que sentia diante de Memória de Inês de Castro; por sua vez, esta insatisfação devia-se ao sentimento de que o livro de 1987 não dava voz suficientemente clara à saudade de Pedro. Escrevi por isso um segundo livro, A Rainha Morta e o Rei Saudade, à procura de cumprir o meu desiderato. E só quem anda longe destas andanças da escrita, não percebe a frustração que sentimos diante de uma página. Ainda agora, a propósito de uma reedição do livro, para desespero do editor, não pude deixar de cortar, de substituir, de acrescentar, sempre na tentativa, porventura vã, de esclarecer melhor, de engrandecer mais a saudade de Pedro.

7. E por falar na "Nota Prévia" do romance, o senhor diz que "quase morreu". O que quis dizer com isso? Aliás, um tanto quanto enigmática a "Nota Prévia", não acha?

Em cada momento se morre ou em cada momento morre aquilo que instantes antes era a vida e o presente. O tempo é um enigma, quer dizer, é um problema sem solução, mas o verdadeiro mistério da existência é a saudade, que perpetua através da lembrança tudo aquilo que já passou e cujo destino é o esquecimento. O heroísmo da Saudade, que é talvez o único heroísmo terreno, pois só ele desafia consequentemente a morte, começou com Orfeu e continuou depois com o rei D. Pedro. Inês é tão imortal como Eurídice e Pedro paralisa as monstruosas feras do tempo com o seu pandeiro de bailador como Orfeu encantava os monstros do inferno com a sua lira de músico e poeta.

8. Em sua opinião, quem melhor representa a Literatura portuguesa?

Luiz Pacheco, escritor surrealista, editor de Ariano Suassuna em Portugal, criador na década de 60 de uma beat à portuguesa. Está vivo, habita num lar, vai fazer dentro de dias oitenta anos. Está quase cego e deixou por isso de ler e de escrever. Antes de cegar, lia Camilo Castelo Branco, Emílio Salgari e o Texas Jack. É um modelo de liberdade e rebeldia para todos nós. Tirando ele, refira-se Agustina Bessa-Luís, que ganhou o Camões em 2004 e tem uma invulgar energia de escrita. É um exemplo de trabalho, génio e devoção.

9. Para o senhor, a Literatura e a História têm feito "jus" à memória de Inês de Castro?

A História tem-lhe sido madrasta, com aquelas ideias peregrinas de aleivosia, mas a Literatura, desde que Garcia de Resende publicou as suas Trovas à morte de Inês de Castro, em 1516, não tem parado de procurar reparar a brutalidade do seu homicídio. Os poetas, de geração em geração, têm deixado aos pés da sua vida e do seu martírio belos e comovidos braçados de flores. Mas antes mesmo da Literatura, a Vida, por intermédio da saudade de Pedro, encarregou-se de justificar o seu sacrifício de pomba ou o seu balido de anho aflito.

Ao invés, a saudade de Pedro, comparável só à lembrança heróica e mítica de Orfeu, tem andado muito desamparada pelas bandas da Literatura e da Arte, para já não falar da História, que não se ocupa de coisas tão mesquinhas como a saudade. O primeiro texto que a meu ver consagrou os sentimentos de Pedro foi o de António Patrício, Pedro, o Cru, de 1918, e a primeira vez que a pintura trocou o martírio de Inês pela saudade de Pedro foi com Lima de Freitas, já na segunda metade do século XX, muito próximo de nós.

10. O que pensa sobre os romances escritos sobre este tema, sobretudo os do começo do século (Antero de Figueiredo, Afonso Lopes Vieira, dentre outros)?

Li há muitos anos, talvez em 1986, quando andava a tomar notas para o meu primeiro relato sobre Inês e Pedro, o romance biográfico de Antero de Figueiredo, surgido em 1913. Comprei o volume num alfarrabista do Chiado e dei-o depois, em Março de 1990, a António Quadros, escritor português e querido amigo que me fez a apresentação pública da Memória de Inês de Castro. Quadros, que morreu aos 70 anos, em 1993, era um homem cultíssimo, filho da poetisa Fernanda de Castro e do escritor António Ferro, mas desconhecia em absoluto o romance de Antero de Figueiredo sobre Inês e Pedro.

Nunca mais encontrei o volume à venda e por isso nunca mais o reli. A impressão que dele me ficou é que se trata de texto muito vivo e muito compreensivo, sobretudo para com a figura de Inês. Vejo a minha impressão confirmada por Miguel de Unamuno, numa carta a Teixeira de Pascoaes (de 23. IV. 1914): "Llevo muy adelantada ya la lectura del libro de Anthero de Figueiredo, D. Pedro e D. Ignez. Es excelente; denso, caliente y coloreado. La presentación y descripción de D.ª Inés admirables. Me recuerda por lo sobrio e intenso el libro francés de Bédier Tristan et Iseult. Y es que la historia de D. Pedro y D.ª Inés tiene no poco parecido con la leyenda de Tristán e Iseo."

O texto de Afonso Lopes Vieira, "Pedro Cru", não é uma narrativa, mas um poema em verso, em duas ou três páginas. Soma 87 versos. Ele chamou-lhe "romance", pensando decerto no romanceiro popular. Escreveu-o aos vinte anos, como uma paráfrase em verso de certas passagens da Crónica de D. Pedro de Fernão Lopes; no quadro da sua obra trata-se de texto quase irrelevante. O mais significativo é ter dado origem, alguns anos depois, quase literalmente, ao título de António Patrício, acima referido.

* Romancista, ensaísta e poeta, Doutor em Literatura Contemporânea, Professor Auxiliar do Departamento de Lingüística e Literatura da Universidade de Évora


(perguntas de Aldinida Medeiros)
aldinidamedeiros@yahoo.com.br
1-2 de Fevereiro de 2005

10-02-2005
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