
Sirlene Cristófano
É próprio da metaficção historiográfica questionar e relativizar o passado, promovendo “reflexividade”. Partindo deste ponto, observa-se que as narrativas históricas contemporâneas apresentam inúmeras diferenças das narrativas tradicionais.
Os autores contemporâneos reescrevem os factos históricos retirando-lhes o verniz de “verdade absoluta”, numa nova forma de diálogo entre História e Literatura. A morte de Inês de Castro, facto histórico que a alçou ao mito, é um dos exemplos de des(re) construção da metaficção historiográfica.
A imagem mítica de Inês de Castro através da escrita literária de Herberto Hélder e João Aguiar, respectivamente em «Teorema» e «Inês de Portugal», mantém Inês de Castro ainda como um tema mítico recorrente em Portugal. A existência de romances que nos podem dar diferentes expectativas e interpretações dos factos – numa combinação História com a ficção – satisfazem a curiosidade de um tempo ou lugar, dando-nos a explicação para um determinado acontecimento através de um vasto recurso narrativo.
Inês de Castro em João Aguiar: Mulher apaixonada e vítima da cobiça
João de Aguiar buscou nos cronistas medievais as justificações exemplares do seu romance, onde também muitos outros escritores se foram apoiar. Através da Crónica de D. Pedro, de Fernão Lopes, por exemplo, João Aguiar absorve da obra medieval a imagem do rei justiceiro para com seu povo. O escritor contemporâneo, ao buscar as várias matrizes reconhece que a verdade historiográfica é uma questão interpretativa dos factos e fundamenta as diferentes versões ao relacionar-se com a memória das personagens envolvidas e também da heroína através das lembranças de D. Pedro. No discurso de cada personagem, fica acessível a ligação do romance à palavra que o actualiza, na coerência de cada uma das falas, desponta-se uma particularidade de Eros e os muitos sentidos da paixão.
Inês de Portugal, ressalta das obras literárias que comentaram o tema inesiano, destacando a tragédia, vigorando o desejo de vingança. D.Pedro com suas recordações, vive a aflição, a falta de sua amada, sentindo-se morto ele também, pois só se aceita vivo com as lembranças do passado, só se define em harmonia com a amada morta. Dadas estas considerações, é da amargura da memória de Pedro que Inês se ergue, enquanto voz, e é do tema terrível que a eterna amada ressurge enquanto imortal, como nos mostra João Aguiar na sua obra.
De forma crítica demonstra-se que tal título – Rainha de Portugal - nasce de artifício e de armadilhas dos Castros que aguçam a ambição da irmã, sugerindo-lhe que a sua futura magnificência fazia parte dos planos divinos. Na obra é narrado o sentimento de D. Pedro, o seu desejo de vingança contra Álvaro Gonçalves e Pero Coelho responsabilizados pela morte de Inês de Castro. Focaliza Álvaro Pais angustiado pelo sincero amor que devota a Pedro e o grande amor que tem por Portugal, que o faz colocar a salvação do reino "acima da salvação da alma do Rei”.
Consumada a vitória mítica do amor sobre a morte – a justiça final, morte de Pêro Coelho - D. Pedro ao caminhar na direcção do portal do mosteiro e, ao sentir que finalmente cumprira a sua missão, fora aprovado e aplaudido pelo seu povo. Focalizam-se os dois momentos da narrativa inesiana: seu desfavorecido amor e seu fatal fim, como também a sua exaltação após a morte.
É importante aqui ressaltar que o romance é movido por duas perspectivas contraditórias sobre a morte de Inês: a de Álvaro Pais e a de D. Pedro. Álvaro Pais acentua a necessidade política dessa morte e D. Pedro a vê como uma injustiça e uma barbárie. Estas visões incompatíveis estão relacionadas com a visão dupla da imagem de Inês e D. Pedro em Inês de Portugal, o que significa que o escritor, contemporâneo em seu romance, contesta de forma subjacente, as representações mitográficas tradicionais, entrando em descontinuidade com os esquemas cognitivos que o leitor comum relaciona a estas duas figuras históricos lendários.
Inês de Castro através de Herberto Hélder: O mito inesquecível
Assim como João Aguiar distancia o ponto de focalização régia no seu romance, Herberto Hélder também descentra o ponto de focalização de Inês de Castro, o que modifica os dados do problema, pois não se trata de uma nova interpretação, mas sim de ponto de vista do mito. O conto é, necessariamente, a apresentação teorética de que a morte de Inês era a condição primeira para que o amor de D. Pedro não se extinguisse e para que o casal de apaixonados fosse transformado em mito e eternizado no código literário, ou seja, cria o que se não tem.
A morte em «Teorema» segmenta-se em duas formas: como base do mito, pois o
assassino, Pero Coelho, morre por ter imortalizado o amor; e também na forma de caminho para o livramento do desejo da morte, sendo neste conto vista como uma imortalização da vida. O poeta não escreve uma história referida pela História, mas sim sobre a História do mito. O narrador aponta as autênticas razões, deixando claro que foi o seu acto que criou o mito.
A personagem sabe que foi a morte de Inês que eternizou o seu infeliz amor, por isso, na hora da vingança de D. Pedro, agradece-lhe a própria morte e lhe oferece a de Inês, como se fora o fundamental de um ritual necessário para, imediatamente, se tornar a vítima de um sofrimento igualmente necessário.
Toda a cena da vingança de D. Pedro, com a retirada do coração do assassino para depois o comer diante da população, assume o sentido figurado de uma cerimónia sagrada, em que o canibalismo é semelhante à comunhão dos corpos, eternizando a morte e tornando-a vida. Um outro elemento fundamental usado em «Teorema» para o estabelecimento do mito é o deslocamento utilizado por Hélder, quando o rei “Fez transportar o cadáver da amante de uma ponta à outra do país, ``as costas do povo, entre tochas e cânticos”. Os homens não podem viver sem mitos, histórias ou qualquer outra imagem sobre as quais possam imaginar-se e reconhecer-se. Os factos da História deixada pelo tempo e pelos historiadores sobre Inês de Castro não têm relevância alguma no conto de Herberto Hélder. O que realmente importa em «Teorema» é eternizar o amor, destruindo-o e logo após recriando-o.
Em «Teorema», o amor vive através do crime e do sangue e a conjuntura amorosa adquire-se enquanto tragédia mortal. A temática do amor existe no conto apenas como representação sem sentido concreto e o amor não será portanto, entre Inês e o rei, mas sim o amor na percepção de Pero Coelho, do seu sangue doado para a História, para a imortalização do amor enquanto mito.
Interessa-nos neste artigo destacar que estas obras corajosas e arrojadas, como «Inês de Portugal», de João Aguiar e «Teorema», de Herberto Hélder, que não procuram reapresentar realidade alguma, mas apenas parecem a realidade ficcional de cada romance. São ainda ficções históricas: o material que utilizam é o mesmo, apenas o efeito final é diferente, fruto do acolhimento dado à História e/ou à história. São os representantes do terceiro momento do romance histórico e também significante de um primeiro… Tempo inovador da Literatura.
Referência Bibliográfica:
AGUIAR, João (1997) Inês de Portugal, Lisboa: Asas Editores, SA.
COUTO, M. A. Rocha (1995), Romance Histórico, Porto, Dissertação de Mestrado.
ELIADE, Mircea (1972) Mito e realidade, São Paulo, Perspectiva.
HELDER, Herberto (1980) «Teorema», in: Os Passos em Volta, Lisboa, Assírio e Alvim, 4ªedição.
Sirlene Cristófano
Faculdade de Letras Universidade do Porto – FLUP
Sirlene.cristofano@gmail.com
Sobre a autora
Sirlene Cristófano é actualmente mestranda em Literatura, Cultura e Interartes pela Faculdade de Letras Universidade do Porto - FLUP (2009). Possui Pós-graduação em Literatura pelo Centro Universitário - FIEO (2002). Formada em Letras pelo Centro Universitário - FIEO (2001). Tem experiência na área da Educação Infantil e Secundária desde 1988. Actua principalmente nos seguintes temas: Educação, Psicanálise, Literatura Comparada, Antropologia do Imaginário e Simbologia.
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