Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
Mário Centeno merece ser considerado o "Ronaldo das Finanças"?
Sim
Não
Não sei / talvez
Edição Nº 100 Director: Mário Lopes Sábado, 21 de Fevereiro de 2009
Opinião
Des (re) construção
da imagem mítica
de Inês de Castro
   


Sirlene Cristófano

É próprio da metaficção historiográfica questionar e relativizar o passado, promovendo “reflexividade”. Partindo deste ponto, observa-se que as narrativas históricas contemporâneas apresentam inúmeras diferenças das narrativas tradicionais.

   Os autores contemporâneos reescrevem os factos históricos retirando-lhes o verniz de “verdade absoluta”, numa nova forma de diálogo entre História e Literatura. A morte de Inês de Castro, facto histórico que a alçou ao mito, é um dos exemplos de des(re) construção da metaficção historiográfica.

   A imagem mítica de Inês de Castro através da escrita literária de Herberto Hélder e João Aguiar, respectivamente em «Teorema» e «Inês de Portugal», mantém Inês de Castro ainda como um tema mítico recorrente em Portugal. A existência de romances que nos podem dar diferentes expectativas e interpretações dos factos – numa combinação História com a ficção – satisfazem a curiosidade de um tempo ou lugar, dando-nos a explicação para um determinado acontecimento através de um vasto recurso narrativo.

   Inês de Castro em João Aguiar: Mulher apaixonada e vítima da cobiça

   João de Aguiar buscou nos cronistas medievais as justificações exemplares do seu romance, onde também muitos outros escritores se foram apoiar. Através da Crónica de D. Pedro, de Fernão Lopes, por exemplo, João Aguiar absorve da obra medieval a imagem do rei justiceiro para com seu povo. O escritor contemporâneo, ao buscar as várias matrizes reconhece que a verdade historiográfica é uma questão interpretativa dos factos e fundamenta as diferentes versões ao relacionar-se com a memória das personagens envolvidas e também da heroína através das lembranças de D. Pedro. No discurso de cada personagem, fica acessível a ligação do romance à palavra que o actualiza, na coerência de cada uma das falas, desponta-se uma particularidade de Eros e os muitos sentidos da paixão. 

   Inês de Portugal, ressalta das obras literárias que comentaram o tema inesiano, destacando a tragédia, vigorando o desejo de vingança. D.Pedro com suas recordações, vive a aflição, a falta de sua amada, sentindo-se morto ele também, pois só se aceita vivo com as lembranças do passado, só se define em harmonia com a amada morta. Dadas estas considerações, é da amargura da memória de Pedro que Inês se ergue, enquanto voz, e é do tema terrível que a eterna amada ressurge enquanto imortal, como nos mostra João Aguiar na sua obra.

   De forma crítica demonstra-se que tal título – Rainha de Portugal - nasce de artifício e de armadilhas dos Castros que aguçam a ambição da irmã, sugerindo-lhe que a sua futura magnificência fazia parte dos planos divinos. Na obra é narrado o sentimento de D. Pedro, o seu desejo de vingança contra Álvaro Gonçalves e Pero Coelho responsabilizados pela morte de Inês de Castro. Focaliza Álvaro Pais angustiado pelo sincero amor que devota a Pedro e o grande amor que tem por Portugal, que o faz colocar a salvação do reino "acima da salvação da alma do Rei”. 

   Consumada a vitória mítica do amor sobre a morte – a justiça final, morte de Pêro Coelho - D. Pedro ao caminhar na direcção do portal do mosteiro e, ao sentir que finalmente cumprira a sua missão, fora aprovado e aplaudido pelo seu povo. Focalizam-se os dois momentos da narrativa inesiana: seu desfavorecido amor e seu fatal fim, como também a sua exaltação após a morte.

   É importante aqui ressaltar que o romance é movido por duas perspectivas contraditórias sobre a morte de Inês: a de Álvaro Pais e a de D. Pedro. Álvaro Pais acentua a necessidade política dessa morte e D. Pedro a vê como uma injustiça e uma barbárie. Estas visões incompatíveis estão relacionadas com a visão dupla da imagem de Inês e D. Pedro em Inês de Portugal, o que significa que o escritor, contemporâneo em seu romance, contesta de forma subjacente, as representações mitográficas tradicionais, entrando em descontinuidade com os esquemas cognitivos que o leitor comum relaciona a estas duas figuras históricos lendários.

   Inês de Castro através de Herberto Hélder: O mito inesquecível

   Assim como João Aguiar distancia o ponto de focalização régia no seu romance, Herberto Hélder também descentra o ponto de focalização de Inês de Castro, o que modifica os dados do problema, pois não se trata de uma nova interpretação, mas sim de ponto de vista do mito. O conto é, necessariamente, a apresentação teorética de que a morte de Inês era a condição primeira para que o amor de D. Pedro não se extinguisse e para que o casal de apaixonados fosse transformado em mito e eternizado no código literário, ou seja, cria o que se não tem.

   A morte em «Teorema» segmenta-se em duas formas: como base do mito, pois o
assassino, Pero Coelho, morre por ter imortalizado o amor; e também na forma de caminho para o livramento do desejo da morte, sendo neste conto vista como uma imortalização da vida. O poeta não escreve uma história referida pela História, mas sim sobre a História do mito. O narrador aponta as autênticas razões, deixando claro que foi o seu acto que criou o mito.

   A personagem sabe que foi a morte de Inês que eternizou o seu infeliz amor, por isso, na hora da vingança de D. Pedro, agradece-lhe a própria morte e lhe oferece a de Inês, como se fora o fundamental de um ritual necessário para, imediatamente, se tornar a vítima de um sofrimento igualmente necessário.

   Toda a cena da vingança de D. Pedro, com a retirada do coração do assassino para depois o comer diante da população, assume o sentido figurado de uma cerimónia sagrada, em que o canibalismo é semelhante à comunhão dos corpos, eternizando a morte e tornando-a vida. Um outro elemento fundamental usado em «Teorema» para o estabelecimento do mito é o deslocamento utilizado por Hélder, quando o rei “Fez transportar o cadáver da amante de uma ponta à outra do país, ``as costas do povo, entre tochas e cânticos”. Os homens não podem viver sem mitos, histórias ou qualquer outra imagem sobre as quais possam imaginar-se e reconhecer-se. Os factos da História deixada pelo tempo e pelos historiadores sobre Inês de Castro não têm relevância alguma no conto de Herberto Hélder. O que realmente importa em «Teorema» é eternizar o amor, destruindo-o e logo após recriando-o.

   Em «Teorema», o amor vive através do crime e do sangue e a conjuntura amorosa adquire-se enquanto tragédia mortal. A temática do amor existe no conto apenas como representação sem sentido concreto e o amor não será portanto, entre Inês e o rei, mas sim o amor na percepção de Pero Coelho, do seu sangue doado para a História, para a imortalização do amor enquanto mito.

   Interessa-nos neste artigo destacar que estas obras corajosas e arrojadas, como «Inês de Portugal», de João Aguiar e «Teorema», de Herberto Hélder, que não procuram reapresentar realidade alguma, mas apenas parecem a realidade ficcional de cada romance. São ainda ficções históricas: o material que utilizam é o mesmo, apenas o efeito final é diferente, fruto do acolhimento dado à História e/ou à história. São os representantes do terceiro momento do romance histórico e também significante de um primeiro… Tempo inovador da Literatura.

   Referência Bibliográfica:

AGUIAR, João (1997) Inês de Portugal, Lisboa: Asas Editores, SA.
COUTO, M. A. Rocha (1995), Romance Histórico, Porto, Dissertação de Mestrado.
ELIADE, Mircea (1972) Mito e realidade, São Paulo, Perspectiva.
HELDER, Herberto (1980) «Teorema», in: Os Passos em Volta, Lisboa, Assírio e Alvim, 4ªedição.

   Sirlene Cristófano
Faculdade de Letras Universidade do Porto – FLUP
Sirlene.cristofano@gmail.com

   Sobre a autora
Sirlene Cristófano é actualmente mestranda em Literatura, Cultura e Interartes pela Faculdade de Letras Universidade do Porto - FLUP (2009). Possui Pós-graduação em Literatura pelo Centro Universitário - FIEO (2002). Formada em Letras pelo Centro Universitário - FIEO (2001). Tem experiência na área da Educação Infantil e Secundária desde 1988. Actua principalmente nos seguintes temas: Educação, Psicanálise, Literatura Comparada, Antropologia do Imaginário e Simbologia.


21-02-2009
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Comentário de Ana Lucia
05-03-2009 às 01:28
Sirlene Como vc as mulheres fortes tem em seu mais singelo ato de amor a capacidade de reconstruir e explorar toda a imensidão que se define em VIDA. Parabéns!! continue a Brilhar. Ana
Comentário de Marcos Cristófano
24-02-2009 às 22:15
Parabéns, meu Amor! Sempre lhe disse, "Você tem o dom da escrita". Continue assim, você é meu orgulho.
Comentário de Fernando Paz Barroso
23-02-2009 às 21:32
Ao focalizar Inês nas diferentes versões do mito, Sirléne leva-nos de forma subtil a repensar o Amor, também ele, como des(re) construção. Parabens pelo excelente artigo
Comentário de Rosa Sílvia López
23-02-2009 às 01:42
Parabéns, Sirlene! Bom que você publique reflexões tão significativas.
Comentário de Sheila Cirstófano
22-02-2009 às 13:48
Pelo facto de ter amado Inês deCastro, D.Pedro apenas soube viver de recordações, após a morte de dela. A memória sustenta os sentimentos. Essa história é linda, um mito de amor que ainda nos deixa a duvida em até que ponto pode ter sido real! Senão fosse tão mágico este amor, não teriamos nas histórias contemporâneas este toque de mágica!
Comentário de Eni I. Faccin
22-02-2009 às 13:27
Muito objetivo e interessante.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
OPINIÃO
Des (re) construção
da imagem mítica
de Inês de Castro
Sirlene Cristófano
Imaginação ao Poder
Nuno Miguel Cruz
O Hospital de Alcobaça
Adelaide Afonso
Saídas para a crise: os mercados francos locais
Valdemar Rodrigues
Carnaval em segurança
Suzana Pestana
Património Mundial sempre em perigo
Rui Rasquilho
A Síndrome de 2009
Ofélia Moleiro
Revitalizar um Património Mundial inserido num Centro Histórico
Vasco Gomes
 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o