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Edição Nº 157 Director: Mário Lopes Domingo, 17 de Novembro de 2013
Sónia Rapaz proferiu conferência em Alcobaça
Técnicos de Património contra instalação
de hotel no Mosteiro de Alcobaça
      

 
Jorge Pereira de Sampaio e Sónia Rapaz

   Sónia Rapaz, arquiteta do Instituto de Ação Social das Forças Armadas e autora de uma tese de mestrado da Universidade de Évora sobre Recuperação do Património Arquitetónico e Paisagístico, proferiu, no dia 9 de novembro, na Sacristia Nova do Mosteiro de Alcobaça, uma conferência com o tema "Adaptação de monumentos a pousadas: teoria e prática". Uma sessão polémica que terminou com o parecer negativo da especialista a uma futura adaptação do Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Alcobaça a hotel de charme.

   Sónia Rapaz começou por explicar que o seu interesse em estudar a adaptação de monumentos a pousadas se deveu a haver poucos especialistas em Portugal nesta área. As Pousadas de Portugal foram o principal objeto de estudo da investigadora. Detidas atualmente pela ENATUR, a gestão e exploração comercial foram concedidas pelo Estado ao Grupo Pestana em 2003. Contudo, das 17 pousadas nacionais estudadas pela investigadora, apenas seis foram objeto da sua análise.

   A indústria turística está institucionalizada em Portugal desde 1911. A criação de pousadas surgiu da necessidade de aproveitar os monumentos históricos existentes no País e dotar as regiões de hotelaria de qualidade. A Pousada de Elvas foi a primeira a abrir em Portugal, por iniciativa de António Ferro, no ano de 1942. 

   Contudo, o primeiro monumento intervencionado para ser utilizado como hotel foi a Pousada de Óbidos, em 1950. A Pousada foi erigida a partir de um edifício já reconstruido e em muito mau estado. A opção de incluir as áreas de serviço dentro do edifício com espaço limitado torna difícil a gestão do espaço, onde um número assinalável de funcionários é obrigado a subir e descer uma miríade de escadas interiores para poder proporcionar um serviço de qualidade aos hóspedes desta pousada, uma das mais procuradas do País. 

   Também o edifício pré-existente da Pousada de Guimarães se encontrava em muito mau estado e já sem coberturas. A intervenção no Convento de Santa Marinha, a cargo do arquiteto Fernando Távora, teve o cuidado de criar as áreas de serviço, com grandes exigências do ponto de vista técnico, fora do edifício histórico, contribuindo assim para uma intervenção menos intrusiva no monumento. A Pousada de Alvito seguiu o mesmo princípio de colocação das áreas de serviço fora do edifício histórico. 

   A oradora explicou que a atual legislação sobre turismo conflitua com a legislação sobre património, uma vez que as exigências de salvaguarda dos monumentos colidem muitas vezes com as exigências legais impostas às unidades de hotelaria e restauração. 

   A criação da Pousada do Crato no Mosteiro de Santa Maria da Flor da Rosa, onde terá nascido D. Nuno Álvares Pereira, foi das mais polémicas. O edifício intervencionado já tinha sido reconstruído e o autor do projeto, o arquiteto Carrilho da Graça, optou por criar áreas de serviço subterrâneas. Contudo, a intervenção, ao fechar o edifício original, fez com que as águas pluviais deixassem de ter escoamento, causando inundações frequentes o que, nomeadamente, faz imobilizar frequentemente os elevadores de serviço. De referir que nem todo o edifício está afeto à Pousada, permanecendo uma parte sob a tutela da Direção-Geral do Património Cultural. 

   Sónia Rapaz deu também nota negativa à Pousada de Vila Viçosa, onde o critério da intervenção foi aproveitar ao máximo as áreas do edifício, independentemente da sua leitura histórica. A arquiteta garante que hoje o visitante não consegue fazer a leitura do que foi o edifício, dando como exemplo o facto da entrada da Pousada ser feita pelas antigas latrinas. 

   

   
Conferência decorreu na Sacristia Nova

   A Pousada de Alcácer do Sal foi construída a partir das ruínas do convento de Aracoeli de freiras clarissas. A alteração do edifício original foi substancial e hoje não é possível fazer a leitura histórica do edifício. Sónia Rapaz ressalva, contudo, que a criação de um museu arqueológico no espaço contíguo à Pousada permitiu poupar esta parte do edificado a intervenções mais profundas. 

   Relativamente à anunciada conversão do Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Alcobaça a pousada ou hotel de luxo, Sónia Rapaz lembra que se trata de um espaço muito grande e que está completamente construído. 

   A arquiteta questionou se vale a pena alterar a função de património histórico, usufruído como tal, para se submeter às exigentes funções hoteleiras, que necessitam de intervenções pesadas, nomeadamente, ao nível das áreas de serviço e da climatização dos quartos. A oradora considera que as celas dos antigos monges cistercienses são demasiado exíguas para poderem ser transformadas em quartos.

   Sónia Rapaz alertou também que, se as Pousadas de Portugal atraem muitos turistas, afastam outros tantos, que se sentem inibidos de aí entrarem para visitar esses edifícios enquanto monumentos históricos, apesar de, por lei, terem permissão para o fazer. 

   A investigadora terminou a conferência defendendo que só vale a pena construir hotéis ou pousadas em monumentos, se estes já estiverem em ruína, quando já não é possível a sua recuperação como edifícios históricos. Pelo contrário, nos casos de edifícios em bom estado de conservação, como no caso do Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Alcobaça, considera que devem manter a sua função de edifícios históricos, para serem usufruídos como monumentos pela população local e pelos turistas. 

   No espaço reservado às intervenções do público, o diretor do Mosteiro de Alcobaça manifestou discordâncias quanto a algumas posições da conferencista, garantindo, nomeadamente, que as celas dos monges são suficientemente grandes para se adaptarem a quartos de hotel e que não têm problemas de pé direito, constituindo as portas a única limitação à função hoteleira, por serem demasiado baixas. 

   Contudo, Sónia Rapaz adiantou ainda outro argumento de peso para desaconselhar a instalação do hotel no monumento Património Mundial: o facto das intervenções para adaptações dos monumentos a pousadas ser habitualmente irreversível, dando como exemplo o caso do Convento de Cristo, em Tomar, em que a construção de uma pousada foi abortada a meio por se ter concluído não ser compatível com o património histórico edificado. Contudo, recorda que as construções já iniciadas não puderam ser demolidas, uma vez que poderiam colocar em risco o património histórico à sua volta, permanecendo até hoje inamovíveis, tendo como função acessória servir de ateliês para os técnicos do monumento. Além disso, esta intervenção invasiva teve como consequência irreversível deixá-la não visitável ao público. 

   Também Isabel Costeira, ex-diretora do Mosteiro de Alcobaça, se manifestou contra a adaptação do monumento a hotel, lembrando que um dos princípios internacionais para a intervenção em património histórico é a sua irreversibilidade, o que estará posto em causa com as obras de adaptação do Claustro do Rachadouro a hotel. A técnica superiora do Mosteiro de Alcobaça lembrou que, se a unidade hoteleira deixar de ser rentável, por qualquer razão, o Claustro não poderá ter mais nenhum uso, já que a função de património histórico visitável se perderá irreversivelmente. 

   Sónia Rapaz reforçou esta posição e lembrou que na construção das Pousadas de Alcácer do Sal e no Crasto houve destruição de património, alertando que nada garante que o mesmo não possa suceder no Mosteiro de Alcobaça. 

   A favor da instalação do hotel no Mosteiro, Eduardo Romero Marques, membro da Assembleia de Freguesia de Alcobaça e ex-secretário da Assembleia Municipal de Alcobaça, defendeu que o Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Alcobaça sempre teve uma utilização social, tendo servido, nomeadamente, como quartel do Exército e como lar residencial, funções que garantiram a sua conversação até aos dias de hoje. 

   Jorge Pereira de Sampaio secundou também esta posição, alertando que a fachada imponente do edifício se irá degradar, se este continuar devoluto. 

   Esta iniciativa inseriu-se no projeto "Aos Sábados na Sacristia do Mosteiro de Alcobaça", que pretende dar a conhecer a história da presença Cisterciense em Portugal, bem como outros temas relacionados com o Património Cultural.

   Mário Lopes
17-11-2013
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Comentário de Antero Leite
19-11-2013 às 12:09
A reutilização como hotel do Claustro do Mosteiro de Alcobaça assume o carácter de CRIME PATRIMONIAL e como tal o projecto deve ser abandonado. Se há ruína iminente então empreenda-se uma intervenção por empresa qualificada. Não se argumente com a crise e falta de meios financeiros porque estes têm existido para financiar eventos mediáticos, artistas do regime e campanhas eleitoralistas. Por outro lado, a rentabilização das pousadas atualmente em exploração é um problema que se coloca com acuidade. Cito, como exemplo, o caso da Pousada do Castelo de Vila Nova de Cerveira que está abandonada. Antero Leite
Comentário de Joaquim Vitorino
18-11-2013 às 12:56
Numa recente visita ao Mosteiro de Alcobaça a 2 de Novembro último, a convite da minha amiga Maria João Lopo de Carvalho, para o lançamento do seu livro "Padeira de Aljubarrota" que teve lugar dentro do Mosteiro; dei a Jorge Pereira de Sampaio os parabéns pelo estado impecável que se encontra o Monumento não obstante as obras que decorrem. Quando li a peça acima fiquei chocado com a possibilidade do local ser aproveitado para uma unidade hoteleira. Trabalhei na hotelaria e turismo 45 anos; sei que os custos para a adaptação do local para uma unidade hoteleira de luxo, seriam equivalentes a dois hotéis novos de raiz. Não conheço nenhum país que alguma vez tenha "SACRIFICADO" um monumento com o mosteiro de Alcobaça, por um vago interesse económico; seria CONSPURCAR um local que nos liga à nossa entidade como povo, que se assumiu na Batalha de Aljubarrota; visitante frequente da Escócia fiquei alojado em muitos castelos aproveitados como pousadas, com recuperações feitas a partir de ruínas. Só de pensar em transformar o Mosteiro numa unidade hoteleira, já constitui só por si um insulto. J. Vitorino
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