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| Património Mundial sempre em perigo |
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Rui Rasquilho
A UNESCO não atribui um cêntimo aos monumentos que classificou ou classificará.
A nossa Europa é hoje um mundo de valores plurais que ultrapassam o património construído que durante algum tempo foi considerado como referência quase única da memória colectiva.
A nossa identidade torna-se num conceito largo e diversificado. O património cultural e a sua salvaguarda obrigam-nos a ter em atenção cada vez mais alternativas aos valores essenciais.
A gestão do património ombreia com a sua identificação. A memória colectiva de cada comunidade é variável com cada época histórica, mas esta afirmação dinâmica não pode alterar a transmissão às novas gerações da herança recebida.
A conservação, restauro e salvaguarda adquirem hoje uma dimensão ética seja no património arquitectónico, intelectual ou ambiental. Os bens móveis e imóveis, a memória imaterial, possuem mobilidade e individualidade que obrigam a que cada comunidade se consciencialize dos seus valores patrimoniais.
Na carta de Cracóvia de 2000 estabelece-se que “o património arquitectónico urbano e paisagístico, assim como os elementos que o compõem, são o resultado de uma identificação com vários momentos associados à história e aos seus contextos socioculturais (...) a conservação do património edificado é levada a cabo segundo o projecto de restauro que inclui a estratégia para a sua conservação a longo prazo. (...) Se se necessitar, para o adequado uso do edifício, da incorporação de partes especiais e funcionais mais extensas deve reflectir-se nelas a linguagem da arquitectura actual. (...) A conservação do património cultural deve ser uma parte integral dos processos de planificação e gestão de uma comunidade, e pode contribuir para o desenvolvimento sustentável económico e social da comunidade.
Creio que tudo o que acaba de ser enunciado serve a qualquer bem inscrito nas listas da UNESCO referentes ao Património da Humanidade. A UNESCO exige para continuidade nas suas listas que o monumento “conserve autenticidade”. Ora ao que parece um pouco por todo o lado e não só em Portugal há uma “acentuada degradação do património”.
Aliás, a classificação é uma categoria abstracta, muitas vezes contraria o que enunciamos da Carta de Cracóvia pois retira o monumento do seio da comunidade.
A atribuição de novas funções contribuíra para a sua sobrevivência, segundo Andersen Guimarães, presidente da Comissão Nacional da UNESCO. “Temos muitos monumentos em avançado risco de degradação”, o Convento de Cristo é um deles.
É sabido que recuperar o património é caro, que salvaguardá-lo significa preparar projectos que levem o Estado a associar-se a mecenas para o salvar. O nosso desleixo dos últimos cinquenta anos mostra que os atentados ao património são cada vez mais frequentes e que parece haver um abandono colectivo da memória das comunidades.
Em Alcobaça, a comunidade não parece ser capaz de sentir o monumento como seu. Dir-se-ia que nada a escandaliza, isto apesar de centenas de membros da comunidade conhecerem o estado desastroso em que se encontra a parte não medieval do monumento.
Reforçar as verbas para a reabilitação dos nossos monumentos Património Mundial – Jerónimos, Batalha, Tomar, Alcobaça, só refiro conventos e mosteiros, não é prioridade dos governos mas ao menos deveriam preocupar-se com projectos de novas funcionalidades pois é sabido que, hoje em dia, a UNESCO finalmente aceita a sustentabilidade do património, podendo utilizar-se os edifícios para outros fins. Alcobaça, por exemplo, se não fosse o exagerado centralismo do Estado era auto-suficiente na manutenção da área medieval, afinal, aquela que é visitável, e que levou conjuntamente com as arcas tumulares de Pedro e Inês à sua classificação pela UNESCO.
“A hotelaria é uma solução desde que cuidada caso a caso”. Eis uma outra de muitas soluções para os vários milhares de hectares de edifícios devolutos do mosteiro. Esta solução também servirá a Tomar embora aqui a área visitável esteja também repleta de problemas de conservação.
Mas será uma vergonha a desclassificação de um monumento ou de um centro histórico ou de uma paisagem natural? Não é, nem trará grandes consequências porque o único benefício de figurar nas listas é promocional...
Mas é um erro ético deixar que tal aconteça. Um erro que a comunidade jamais entenderia. No caso de Alcobaça, seria ignorar a dimensão universal da arquitectura da Ordem de Cister. Alcobaça necessita de dezenas de milhão de euros, Tomar também, a Batalha e os Jerónimos desconheço, mas será bastante inferior a verba indicada pois não têm o peso dos edifícios abandonados pelo antigo lar residencial de Alcobaça e hospital militar de Tomar. É irónico, mas os monumentos classificados pela UNESCO e que nada lhe custam financeiramente ou se viram decididamente para o capital privado ou, desculpando-se com a crise, a tutela verá aos poucos diluir-se a memória.
Rui Rasquilho
Fundador da Comissão Nacional do Icomos
Ex-presidente da Campanha Nacional de Defesa do Património
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| 02-02-2009 |
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