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Edição Nº 124 Director: Mário Lopes Terça, 1 de Fevereiro de 2011
Opinião
Do patriotismo relativo
      

 
ValdemarJ. Rodrigues
vjrodrigues65@sapo.pt

O fenómeno recente, multidimensional e complexo que ficou genericamente conhecido por globalização, há muito notado e estudado pelos mais diversos autores, trouxe até agora ao mundo uma rara oportunidade e um rol de problemas sem fim à vista. A oportunidade foi sem dúvida a do nascimento dessa república universal, ou cosmopolis, sonhada por Kant e, contemporaneamente em Portugal, tão bem assinalada por José Adelino Maltez. Ela seria o resultado da crescente tomada de consciência, por parte de muitas e variadas gentes, da existência de um conjunto de valores e princípios morais, abrangentes e razoáveis, capazes de servirem de alicerce seguro à paz entre os povos. O mundo parecia finalmente dar-se conta de que os problemas não eram exactamente as tradições religiosas, as cores da pele humana, as ideologias políticas ou mesmo o nível de desenvolvimento económico dos países, que separavam fundamentalmente os seres humanos uns dos outros. As possibilidades oferecidas pela tecnologia, e em particular a crescente mobilidade humana, permitiam verificar a veracidade da teoria: tais atributos não significavam em absoluto nada de determinante. O sofrimento ou a esperança por um mundo melhor e mais justo, tal como o mais vertente descaro ou canalhice, pareciam subitamente existir independentemente das geografias, das afiliações e das circunstâncias humanas. Podiam estar em qualquer modo ou parte, bem como em qualquer tempo, pois é o que também fica das viagens: a sensação de que o tempo esculpe os homens e as paisagens a ritmos diferentes, e que a diferentes ritmos os vai alterando e destruindo, o que o torna também ele relativo. Esse estado ou condição de não-lugar e de não-tempo, que era para os gregos a essência da utopia, e que para nós portugueses podia muito bem ser o extenso território dessa Mátria de António Vieira que nos dá vida, abeirava-se assim da humanidade, como que à espera que ela no seu conjunto o entendesse. Nunca a humanidade esteve tão perto dessa utópica antecâmara por onde podia passar, se quisesse, para a tão desejada paz universal e duradoura – poderão vir a dizer, no futuro, alguns historiadores.

O patriotismo, enquanto querer ser autonomamente, e ao qual Miguel de Unamuno contrapunha o matriotismo, mais complexo e eficaz, enquanto querer inteligente de ser com o outro, esteve sempre mais ou menos presente nas muitas discussões que houve ao longo das últimas décadas sobre as consequências nefastas da dita globalização. As opiniões, como seria de esperar, dividiram-se entre soberanistas e não-soberanistas, autonomistas, nacionalistas, federalistas, etc. A ideia de necessidade de uma profunda reforma do Estado – a criatura moderna ameaçada que parecia mais mostrengo do que monstro à medida que se caminhava pela estrada cada vez mais larga e afluente da globalização – foi também recorrente nesse período. No essencial, o Estado não mudou, mas entretanto muitas perguntas legítimas foram ficando sem resposta.

Se o Estado nacional, ou a pátria que com ele por vezes se confunde, era no essencial para manter, então porquê um tão forte desejo de liberalização por parte de tantos políticos nacionais? Mas se a liberalização era um desígnio a prosseguir, então porquê a intensificação de leis domésticas, cada vez mais técnicas e particulares, que condicionavam a iniciativa dos cidadãos e das empresas? No caso português, o chorrilho de normas comunitárias, já de si questionável em muitos aspectos para além do da substância, foi sendo transposto e aplicado sem uma visão integrada e estratégica do desenvolvimento, e sem o indispensável exercício da subsidiariedade. Em suma, de forma pouco competente, nalguns casos (e.g. agricultura) até mesmo irresponsável. A atenção fiscalizadora do Estado, aos mais variados níveis, foi sendo tão severa para com os fracos como branda para com os fortes. O resultado está hoje à vista, e para confirmá-lo basta ver a situação em que se encontra a maioria das micro, pequenas e médias empresas nacionais. Que, ainda assim, existem para gáudio das estatísticas do governo, forçadas que são a existir pois as finanças e a segurança social são, para elas, implacáveis. Para elas que não souberam, ou não puderam, aceder aos insondáveis mistérios fiscais das consultadorias jurídicas e financeiras, e das sociedades anónimas sediadas nos respectivos paraísos. O paraíso, já o sabíamos, não era para todos. Mas agora aprendemos uma coisa nova e estranha: só deve favores à pátria quem não ganhou asas para sair dela. Os verdadeiros patriotas são agora aqueles que não estão mas que à distância, e sem qualquer impulso da necessidade, a amam e glorificam. E, perante a ambivalência, assalta-nos um remorso, uma dor interna por não termos visto aquilo que sempre fora o óbvio: as fronteiras só existem para aqueles que as não podem atravessar livremente. Em última instância, a fronteira pátria é como a parede de uma grande prisão, onde agora o Estado é carcereiro. Essa é a razão principal que fez com que os políticos, pelo menos os da Europa ocidental, não se tenham eles mesmo globalizado: há gente cá dentro para tratar e tomar conta. Foi por isso que, ao invés, tais políticos privatizaram o Estado através dos partidos, enfeudando-se num mundo à parte e distanciando-se assustadoramente da realidade. Porque não fizeram como os outros e, saindo, exportaram as suas virtudes para o mundo, tornando-o definitivamente melhor? Porque razão se multiplicaram cá dentro e se pegaram como lapas aos bens e coisas públicas da pátria, gerindo-as da forma irresponsável com que geriram, entre roubos, falsificações, mentiras e silêncios comprometedores? Um dia talvez venhamos a saber exactamente. Mas não vai ser o FMI que nos vai dizer.
01-02-2011
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