Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
Quem é responsável pelo conflito entre os motoristas e as empresas transportadoras?
Os motoristas
As empresas
O Governo
Outros
Não sei
Edição Nº 218 Director: Mário Lopes Sexta, 28 de Dezembro de 2018
Opinião
O Governo do descaso
  
                  Mário Lopes
A constituição da atual coligação governamental, batizada desde o início de Geringonça, assentou numa narrativa de devolução de direitos e rendimentos, em contraposição ao Governo anterior presidido por Passos Coelho, de austeridade e restrição de direitos, de forma a atingir boas contas públicas, leia-se, défice orçamental próximo de zero.

   Foi esta a narrativa que levou António Costa a convencer os seus parceiros de coligação, a viabilizar um governo minoritário socialista. Três anos volvidos e com eleições à porta, é já tempo de aferir se esta narrativa teve adesão à realidade ou não passou de uma fantasia.

   O primeiro sinal da narrativa de devolução de direitos e rendimentos foi a devolução antecipada dos cortes nos vencimentos dos funcionários públicos, medida já tomada pela coligação PSD/CDS para ser finalizada em cinco anos. Quando António Costa tomou posse como primeiro-ministro já a primeira tranche tinha sido paga e estava a iniciar-se o pagamento da segunda tranche. Convém ainda lembrar que não foi o Governo da Geringonça que decidiu repor os vencimentos na sua totalidade, mas o Governo anterior.

   Naturalmente, os trabalhadores do sector público têm direito à totalidade dos seus vencimentos, a exemplo do que sucede no sector privado, sendo este corte efetuado a título excepcional, em consequência da crise de finanças públicas de 2011, que levou à intervenção da Troika em Portugal. Portanto, nem Passos Coelho nem António Costa fizeram um favor aos funcionários públicos ao repor os seus salários, a isso eram obrigados. Se o não fizessem, seriam os tribunais a obrigá-los a repor a totalidade dos salários, pois a lei assim o exige.

   Por outro lado, o que o Governo de António Costa fez foi apenas antecipar em alguns meses a reposição da totalidade dos salários. Ao contrário do que muita gente supôs, em termos de impacto no Orçamento de Estado, nesta antecipação estávamos a falar de um diferencial de tostões. Por isso, não se compreende a narrativa de Pedro Passos Coelho de que, com esta devolução de rendimentos, o País iria voltar à bancarrota.

   Nisto, foi seguido por reputados economistas e jornalistas de economia da nossa praça que garantiram a pés juntos que a bancarrota estava à vista, só faltava saber o momento exato do colapso. Sem fazerem uma única conta demonstrativa do que afirmavam, garantiam que o Diabo vinha a caminho, sendo sempre esperado no mês seguinte. Obviamente, o Diabo não veio porque o que estava aqui em causa eram valores reduzidos e nenhum País vai à bancarrota por causa de meia dúzia de tostões. Mas será que os reputados economistas e jornalistas de economia da nossa praça foram fazer as contas para perceber onde se enganaram? Não. Fazer contas dá muito trabalho e, por isso, preferiram falar no milagre Centeno. Agora já não vem aí o Diabo, temos um ministro das Finanças que faz milagres! Continuamos no domínio do divino e quanto à credibilidade dos comentadores encartados da nossa praça, estamos conversados.

   Da política de devolução de rendimentos, fez também parte o aumento do salário mínimo para 600 euros durante a legislatura. Esta foi uma medida muito fácil de tomar pelo Governo da Geringonça, porque este aumento foi pago integralmente pelos empresários privados, já que poucos eram os funcionários públicos com salário mínimo e mesmo os menos qualificados ganhavam ligeiramente mais. Portanto, com este acordo, não só o Governo não pagou nada pela medida, como ainda passou a receber mais descontos para a Segurança Social e até mais IRS, no caso em que os patrões aceitaram aumentar todos os salários da empresa para acomodar o aumento do salário mínimo nas carreiras da empresa.

   Importa fazer aqui um parêntesis para perceber porque é que um aumento de salário significativo (20%) em quatro anos não gerou a satisfação esperada, pelo contrário, continua a geral insatisfação entre os trabalhadores abrangidos pelo salário mínimo. Duas novas despesas significativas explicam, na minha opinião, este paradoxo. A principal foi a subida do valor das rendas de casa, nalguns casos exponencial, nomeadamente, nas grandes metrópoles, como Lisboa e Porto. A segunda despesa é de origem tecnológica e deve-se à generalização do acesso às Internet, com todos os custos associados, mesmo nos escalões sociais de baixos rendimentos: ao contrário do que sucedia há 10 ou 15 anos, hoje, às despesas mensais há que somar os custos com aquisição e manutenção de computadores e telemóveis e o acesso à banda larga, fixa e móvel, entre outros. Dificilmente, os 100 euros de aumento do salário mínimo cobrem os custos de todas estas novas despesas e hoje já não há jovens trabalhadores infoexcluídos. Nem querem ser.

   Nos últimos meses temos assistido a uma onda de greves de quase todos os sectores da Administração Pública. PSD e CDS logo responsabilizaram o Governo por estas greves, acusando-o de ter causado demasiadas expectativas que sabia não poder cumprir. O PS, por sua vez, atribui a onda de greves ao aproximar de novas eleições, sendo por isso de teor oportunista, constituindo uma oportunidade para os sindicatos pressionaram o Governo para obter aumentos salariais. A generalidade dos economistas e jornalistas de economia tem afinado pelo mesmo diapasão, mas, mais uma vez, estão enganados.

  Chamo a atenção que estas greves têm tido grande adesão e ninguém faz greve com satisfação, representam um desconto no salário, geralmente, já de si apertado. Portanto, não faz sentido pensar que um qualquer trabalhador faz greve, prejudicando-se financeiramente, para satisfazer qualquer agenda política ou sindical. Também não faz sentido pensar que apenas reivindicam salários mais dignos porque a Geringonça lhes prometeu que seriam melhor remunerados. Ora, o verdadeiro problema é que os salários destes trabalhadores acabam no dia 25, no dia 20 ou até no dia 15 de cada mês. Se esta tese fosse verdadeira, caso o Governo não lhes tivesse prometido nada, estes trabalhadores estariam hoje satisfeitos, mesmo se o seu salário só desse para pagar as despesas de duas ou três semanas do mês… Portanto, esta tese não faz qualquer sentido.

   As razões destas greves são então outras e prendem-se, na minha opinião, com duas ordens de razões.

   A primeira razão, é a queda dos salários reais, resultantes de 10 anos consecutivos sem atualizações salariais. A taxa média de inflação, neste período, foi superior a 1% (Dados da PORDATA), pelo que a queda do salário real foi superior a 10% neste período. Para que tenhamos bem a noção do que isto representa, para um salário de mil euros, o trabalhador do Estado teve uma perda salarial superior a 100 euros. Para um salário de dois mil euros, a perda salarial foi superior a 200 euros. E assim sucessivamente. Portanto, estamos a falar de quedas muito significativas do rendimento, a que se somaram todos os outros cortes salariais, aumento de impostos e até a supressão dos subsídios de férias e de Natal de 2012.

   Está bom de ver que a política de devolução de direitos e rendimentos de António Costa é uma mistificação. Enquanto repunham umas escassas dezenas de euros de cortes salariais em 2016, o primeiro-ministro e o ministro das Finanças da Geringonça reduziam à socapa os salários reais dos funcionários públicos durante 4 anos, ao recusarem atualizá-los ao valor da inflação!

   Para esta estratégia bem-sucedida - do ponto de vista do Governo, claro está - Costa e Centeno contaram com a incompreensível passividade dos parceiros de coligação e dos sindicatos que aceitaram sempre equiparar no discurso atualizações salariais a aumentos salariais. Ora, ao atualizar anualmente os salários de acordo com a inflação, o Governo não está a aumentar o salário real do trabalhador, mas a mantê-lo! Ao aceitarem que o Governo não atualizasse os salários, por mais que esta conclusão custe a BE, PCP e PEV, a verdade é que estes partidos também aceitaram reduzir os salários reais dos trabalhadores da Administração Pública durante 4 anos!

   A segunda razão é o grosseiro e sistemático desrespeito do Governo da Geringonça pelas carreiras dos funcionários da Administração Pública. Importa aqui recordar que as atuais carreiras não caíram do céu, foram negociadas durante anos por sindicatos e Governos, e garantem o respeito pelos graus académicos e pela experiência acumulada pelos trabalhadores ao longo do tempo. Sem este respeito pelas carreiras, trabalhadores menos qualificados passam a ganhar comparativamente mais que trabalhadores mais qualificados e trabalhadores menos experientes mais que trabalhadores com longa experiência. Com todos estes atropelos, gera-se um compreensível mal-estar e um sentimento de injustiça muito grande e, até, de indignação.

   Não se pode aumentar salários mínimos sistematicamente, ignorando sucessivamente, ano após ano, os funcionários mais qualificados e/ou mais experientes que se seguem na hierarquia.

   O caso dos enfermeiros é gritante, sendo recorrente a queixa de que profissionais inexperientes , acabados de sair da faculdade , iniciam funções a ganhar o mesmo que colegas com mais de 20 anos de exercício profissional. Trata-se de uma situação absurda, que o Governo deveria corrigir de imediato. Por outro lado, não faz sentido que a formação de longa duração não seja devidamente reconhecida. Um enfermeiro hoje tem atrás de si cinco anos de formação superior e esse mérito e essa formação tem de ser reconhecida pelo Estado: não pode pagar-lhe mil euros como se fosse um trabalhador não qualificado ou de qualificação de curta duração.

   Aliás, é curioso que António Costa tenha proposto isenções fiscais aos trabalhadores que emigraram entre 2012 e 2015, sabendo que muitos deles foram enfermeiros que emigraram para Inglaterra, onde o seu trabalho é efetivamente reconhecido e lhes oferecem salários de 3 e 4 mil euros. Com que moral pede agora António Costa a estes jovens profissionais que regressem se o que tem para lhes propor são salários de miséria? E mil euros, para um profissional qualificado, não pode deixar de ser qualificado como – em termos relativos, tendo em conta a sua longa formação, naturalmente – um salário de miséria.

   Importa lembrar que a maior parte destes enfermeiros entraram para o Ensino Superior com médias altíssimas, de 15, 16, 17 e 18 valores, muitos deles não entraram em Medicina por escassas décimas. São portugueses de grande qualidade e mérito e é lamentável que continuem a ter de emigrar para beneficiar de um salário digno. Seguramente, não é pelas escassas centenas de euros anuais de bonificação no IRS que estes enfermeiros emigrados voltarão para Portugal.

   Não admira, por isso, que as greves dos enfermeiros se eternizem no tempo. Naturalmente, sentem que toda a razão está do seu lado e não têm como parar de lutar. Também não admira que as greves se vão extremando, sendo sinal disso, a greve às cirurgias, que tem afetado milhares de utentes do Serviço Nacional de Saúde. Por mais cadernos reivindicativos que entreguem e por mais greves que façam e por mais justas que sejam as suas reivindicações, o Governo Costa/Centeno traz invariavelmente para todas as reuniões uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.

   A estratégia deste Governo passa por repetir sempre o mesmo discurso: que todas as greves convocadas são legítimas, que devem ser respeitadas e – subentende-se nos silêncios – ignoradas. António Costa até já ironizou dizendo mesmo que agora há greves todos os dias. Ora, é verdade que as greves fazem parte da vida em democracia, mas o que definitivamente não faz parte da vida democrática é ignorar as greves e as justas reivindicações de milhares de pessoas. António Costa, Mário Centeno e o Governo PS mancham a democracia ao ignorarem de forma sistemática todas as greves. Nunca em mais de 40 anos de democracia assistimos a este descaso perante quem se manifesta de forma ordeira e pacífica, pedindo respeito e justiça. Mais ainda por um Governo que se diz socialista e defensor dos trabalhadores.

   Relativamente ao início do descongelamento das carreiras, nada têm também os trabalhadores da Administração Pública a agradecer ao atual Governo. Recordo que já em 2014 a então ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, tentou descongelar as carreiras, lamentando a própria não ter conseguido folga orçamental já nesse ano. Acredito que Maria Luís Albuquerque – que também é funcionária pública - o teria feito logo no ano seguinte, 2015, para entrar em vigor em 2016. O Governo PS, que se reclama de devolução de direitos e rendimentos - adiou a medida para 2018, penalizando assim durante mais dois anos os mesmos do costume.

   Por esta altura, alguns leitores já estarão a pensar o mesmo que o Governo tem repetido: que os trabalhadores terão razão, o problema é que não há dinheiro. É este o argumento repetido à exaustão pelo Governo de António Costa. Como já o fora pelo Governo de Passos Coelho.

   Li há alguns anos que, após a Revolução Francesa, um nobre francês foi informado que teria de pagar a água que lhe chegava ao seu palácio e que até aí nunca pagara.
- Mas a água paga-se?, terá respondido, surpreendido.
Lembrei-me deste episódio a propósito de Mário Centeno e das carreiras da Administração Pública. A julgar pelo discurso do atual ministro das Finanças, Centeno bem poderia ter questionado o primeiro-ministro se as carreiras dos funcionários públicos se pagam. Ora, as carreiras dos funcionários públicos representam uma despesa como qualquer outra, devem ser acomodadas nos Orçamentos de Estado, como todos os outros ministros das Finanças anteriores fizeram. O respeito pelos salários pode não suceder nos regimes autoritários, mas é o que acontece em qualquer democracia.

   O ex-Presidente da República Jorge Sampaio queixava-se quando ocupou o cargo que, em Portugal, a lei era uma sugestão: cumpria-se quando dava jeito! E, a julgar pelas suas políticas, Mário Centeno também entende que as leis só são para cumprir quando lhe dá jeito e, nomeadamente, que o Estado de Direito é para pôr na gaveta quando se trata de finanças públicas.

   Para já, como não lhe agradava a carreira dos professores, inventou uma carreira paralela, uma vez que não lhe dava jeito contabilizar os nove anos, quatro meses e dois dias que os professores trabalharam entre 30 de agosto de 2005 a 31 de dezembro de 2007, e de 1 de janeiro de 2011 a 31 de dezembro de 2017 (3411 dias).

   Em vez disso, resolveu contabilizar apenas "2 anos, 9 meses e 18 dias", utilizando um bizarro critério, criado em cima do joelho e que não negociou com nenhum sindicato, de comparação com a carreira geral da função pública. Porquê esta comparação? Porque lhe dava jeito! À força da razão, Centeno contrapõe a razão da força, levando tudo e todos à frente, como fazia quando era jogador de râguebi. E para esta estratégia musculada encontrou preciosos aliados de circunstância. Quem? Os mesmos que tinham votado em Passos Coelho e que agora o nomeiam personalidade do ano. Cada vez mais se torna difícil perceber a diferença entre Mário Centeno e Vítor Gaspar. Os novos apoiantes, pelo menos, são os mesmos…

   Para esta faixa do eleitorado, tudo o que os funcionários ganham são privilégios: o salário, a ADSE (suportada pelos próprio e onde o Estado não gasta um cêntimo), as carreiras, tudo. Tudo o que seja acima de salário mínimo é um privilégio para estas criaturas, mesmo sabendo que os funcionários públicos são dos mais qualificados do País (médicos, enfermeiros, juízes, professores, quadros técnicos superiores, militares, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, etc.). Contudo, os mesmos que defendem salários de miséria para os funcionários públicos são os mesmos que exigem serviços públicos de qualidade e excelência no atendimento. Sol na eira e chuva no nabal! Se estes são os apoiantes de Mário Centeno, o mínimo que se pode dizer é que o ministro das Finanças da Geringonça anda muito mal acompanhado.

   Mas voltemos à questão central invocada pelo Governo: não há dinheiro! Lembram-se o que dizia a oposição quando o Governo da Geringonça tomou posse? Não havia dinheiro para eliminar mais cedo os cortes nos vencimentos dos funcionários públicos porque esses pagamentos iriam levar o País à bancarrota de novo! Obviamente, não passava de bluff. Não só o País não foi à falência, como a economia melhorou!

   Como expliquei atrás, o Diabo nunca viria porque se tratavam de tostões, à escala do Orçamento de Estado. Neste caso, a situação não é idêntica, mas é semelhante porque os sindicatos de funcionários público, numa posição de grande moderação, apenas exigem a reintegração plena nas carreiras faseada no tempo.

   No caso da contagem do tempo integral de serviço aos professores, trata-se, mais uma vez, de uma gota de água em termos orçamentais, cerca de 50 milhões de euros por ano. Portanto, ao contrário do que muita gente erradamente pensa, não há qualquer racionalidade financeira neste conflito. Mário Centeno e António Costa usam os mesmos argumentos de Passos Coelho, uma nova versão do Diabo, baseada no medo e na desinformação, lançando para o ar números astronómicos que depois se recusam a apresentar detalhadamente.

   Mário Centeno mistura reposições de cortes salariais com aumentos salariais e junta progressões salariais futuras como se as fosse pagar hoje! Tudo para impressionar a opinião pública, contando também com a já conhecida posição dos economistas e jornalistas de economia que se recusam a fazer uma conta de somar para verificar se o ministro está ou não a dizer a verdade.

   Faço aqui uma ressalva para lamentar que Mário Centeno e o Governo misturem eliminação de corte de vencimentos com aumentos salariais. Durante quase 10 anos, os funcionários públicos tiveram os seus salários reduzidos, face ao que seria a sua carreira normal. Houve casamentos desfeitos, familiares que tiveram de emigrar, muitos foram penhorados e deixaram de poder honrar os compromissos financeiros que tinham assumido. O Estado devia agradecer os sacrifícios porque passaram centenas de milhares de funcionários públicos e não, de forma desrespeitosa, vir anunciar aumentos salariais quando apenas está a repor o salário normal aos seus funcionários.

   Se não, suponhamos um exemplo semelhante no sector privado. o caso de um patrão que, num momento de crise da sua empresa corta os salários em 30%. Quando a empresa já recuperou, naturalmente, os trabalhadores pedem ao patrão que reponha os salários cortados há vários anos. O patrão, em vez de agradecer os sacrifícios dos trabalhadores durante vários anos, pelo contrário, vem depois acusar os trabalhadores de pedirem aumentos irrealistas e contrapor já ter concedido nesse ano “aumentos” salariais de 10%, os maiores de sempre!

   Ora, na minha opinião, a posição de Mário Centeno e António Costa é idêntica à deste patrão ingrato e pouco ético relativamente aos funcionários públicos. Não só não agradece os sacrifícios feitos por estes ao longo de quase 10 anos, em que tiveram os salários cortados face ao que seria a carreira normal, como ainda vem anunciar grandes “aumentos” de salários quando está apenas a repor parte dos salários cortados e acusar os trabalhadores de exigências irrealistas quando vêm apenas exigir que lhe paguem o salário normal a que têm direito.

   Naturalmente, se o valor da reposição é significativo é porque os cortes de salários também foram significativos. Um Governo de bem só tem de agradecer os sacrifícios dos trabalhadores e não tentar prolongar ou eternizar esses cortes para além da situação de exceção que a motivou.

   Os funcionários públicos não querem reverter os sacrifícios que fizeram pelo País, como os trabalhadores do sector privado também fizeram, mensagem que Manuela Ferreira Leite e outros comentadores já tentaram fazer passar. Os sacrifícios foram feitos e nenhum trabalhador do Estado pede qualquer compensação pelos cortes efetuados durante o tempo da Troika. O que não aceitam é continuarem a fazer sacrifícios o resto da sua vida: não só até à reforma, como também durante o tempo de aposentação, pois salários mais baixos implicam menos descontos e uma pensão futura mais baixa. A proposta que a dupla Costa/Centeno fazem é que os funcionários públicos levem a Troika para o túmulo! E isso, naturalmente, nunca aceitarão.

   Por outro lado, estes cortes apenas afetaram uma parte dos funcionários públicos. Lembro que os funcionários com menos de 35 anos irão ter agora direito a uma carreira normal, assim como aqueles que já têm mais de 60 anos e que já estavam no topo da carreira não foram afetados. Pelo contrário, quem tem entre 35 e 55 anos, grosso modo, perdeu muitos milhares de euros, por uma crise financeira da qual não teve qualquer responsabilidade. A manutenção deste corte extraordinário de salários corresponde à manutenção de um imposto especial vitalício, que não faz qualquer sentido seja pago apenas por uma parte dos portugueses, em geral, e por uma parte dos funcionários públicos, em particular.

   Por outro lado, a falácia da falta de dinheiro é demonstrada quando o Governo anuncia novas medidas sociais, como os livros gratuitos para todos os alunos e passes a metade do preço no País todo. Então o Governo não tem dinheiro para pagar os salários normais aos seus funcionários e anda a oferecer livros gratuitos a quem não precisa? Recordo que os alunos carenciados já tinham direito a livros gratuitos. O que diríamos nós se um patrão fizesse o mesmo que o Governo faz e não pagasse a totalidade dos salários aos seus empregados, alegando não ter dinheiro, e ao mesmo tempo andasse a financiar ações sociais na sua comunidade? Se o Governo tem dinheiro para muitas medidas sociais, para servir de bandeirinha eleitoral, como pode alegar não ter dinheiro para pagar aos seus funcionários, que continuam com os salários cortados?

   Ou ainda, porque não adota o Governo a mesma posição com os outros parceiros do Estado? Porque é que, por exemplo, no momento de cumprir as suas obrigações com as Parcerias Público Privadas (PPP) não alega o mesmo, pagando apenas 80% dos seus compromissos porque, de contrários, as contas públicas não são sustentáveis? E porque não faz o mesmo com todos os outros fornecedores do Estado? Responda quem souber.

   As contas de Centeno estão ainda erradas por uma outra razão. Ao contrários das empresas privadas, em que os salários dos trabalhadores são uma despesa efetiva – o dinheiro já não volta – no caso do Estado, a maioria das atualizações salariais regressa ao próprio Estado: seja diretamente, por via do IRS (aumento de escalão implica aumento da taxa de IRS), seja nos descontos para a Segurança Social ou para a ADSE, seja indiretamente, por aumento da receita de IVA por conta dos bens consumidos. Portanto, cerca de metade da verba a pagar pelas atualizações de salários aos funcionários públicos, volta para engordar os cofres do Estado.

   No caso dos professores, as discriminações são múltiplas e, como tal, o Governo está cada vez mais isolado na sua posição. Primeiro, como é que o Governo contabiliza todo o tempo de carreira de uns funcionários públicos e utiliza um critério diferente com outros? Como é que na Madeira, todo o tempo é contado e no Continente não? Como é que nos Açores, com um Governo PS, todo o tempo é contado e no Continente não? Será que os Governos Regionais da Madeira e dos Açores são irresponsáveis e vão assumir custos insustentáveis que vão levar estes territórios à falência?

   Diz o povo que a mentira tem perna curta e, por isso, Costa e Centeno estão cada vez mais atolados na narrativa ficcional que quiseram impor aos portugueses: a nova versão, revista e aumentada, do regresso do Diabo. Como tal, não admira que estejam completamente isolados no Parlamento e até na sua própria bancada os embaraços sejam cada vez maiores.

   Ainda uma palavra sobre as carreiras da Administração Pública. Será que os salários dos funcionários públicos são excessivos? Será que põem em causa a sustentabilidade das contas públicas, como alguns dizem? Só quem não tem a noção do ridículo é que pode considerar o salário de um enfermeiro de menos de mil euros líquidos, de um professor de pouco mais de mil euros líquidos excessivo ou de um polícia, que arrisca a vida por 800 euros líquidos, de excessivo . Recordo que há 10 anos que os salários não são atualizados e que, em muitos casos, a carga de impostos do trabalhador chega quase a 50%.

   Como pode António Costa pedir aos empresários que paguem bons salários aos jovens licenciados, como fez na Mensagem de Natal, quando ele próprio defende, com unhas e dentes, salários de miséria para os trabalhadores que estão sobre a sua tutela?

   Não admira que polícias, guardas prisionais, enfermeiros, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, médicos, professores ou oficiais justiça protestem e as greves se sucedam cada vez com maior intensidade. Acontecem depois de meses e anos de pacientes e frustrantes negociações com os sindicatos, onde nada mais acontece senão jogos de retórica vazia. É o completo descaso. O problema deste Governo não é dar tudo a todos, pelo contrário, é não dar nada a ninguém. Se algum pecado há a apontar a estes trabalhadores é a enorme moderação das suas reivindicações porque a razão que lhes assiste é total.

   Mário Lopes
28-12-2018
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
EDITORIAL
O Governo do descaso
Mário Lopes
OPINIÃO
A Hipoteca do Futuro pelos Foguetes do Presente
Tiago Carrão
O novo Programa Estratégico de Reabilitação Urbano (PERU)
Carlos Bonifácio
Mudar Alcobaça, mas para melhor
Luís Guerra Rosa
 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o