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Edição Nº 80 Director: Mário Lopes Quinta, 31 de Maio de 2007
Opinião
“Ao Menino e ao Borracho mete Deus a mão por baixo…”

     


Margarida Batalha e Isabel Ferreira

Já lá diz a sabedoria popular e não sem razão! Na verdade quantas vezes, nós que somos pais/educadores não tivemos já um daqueles sustos, de cortar a respiração, de surpreender, de repente, um dos nossos filhos num iminente acidente ou de, repente olharmos à volta num espaço cheio de gente e já não os vemos… Quase sempre nessas alturas gostávamos de os ter colados a nós, ou que fossem ainda bebés de colo (mas aí tínhamos outros sustos, já não nos lembramos é tanto desses… já passaram há mais tempo!!!).

       Mas nós, pais e educadores, não sendo capazes de impedir todos os acidentes, nem todas as dores aos nossos filhos (e, desculpem, mas ainda bem!) estamos presentes e eles contam connosco para os ajudar a entender o que é ou não seguro, o que é ou não possível neste jogo de teste constante ao limite do corpo, das forças, do mundo (da lei da gravidade!!!) que fazem as crianças pequenas… E chama-se a isto… Crescer!  A relação consigo, com os outros (pares ou adultos), com a fantasia e criação, com a acção, fazem parte da grande descoberta de si próprio e do mundo.

      O papel do adulto é o de estabelecer “um perímetro de segurança” física, literalmente falando, mas também afectiva, emocional, que possibilite à criança a descoberta. Por vezes, este papel é confundido com a repressão da acção e, na necessidade efectiva de proteger a criança, esquece-se que é na experiência do bom e do menos bom que ela fará os seus juízos (“eu bem avisei mas não me ouves…”, pois, é que avisar não basta: é preciso experimentar!). Quantas vezes ouvimos “não corras senão cais!”… - pedir a uma criança que não corra??!! Certamente precisa de correr e certamente também precisa de cair, esperemos que sem grandes mazelas!

      Entendendo assim a importância da acção, o adulto constitui-se não como um elemento de castração e de repressão do movimento, da acção, mas como um facilitador deste espaço de descoberta, respondendo à necessidade de segurança física e de segurança afectiva de cada criança, isto é, a presença do adulto enquanto aquele que garante o limite e a regra, no respeito do objecto, do espaço e do outro, que garante que a criança na sua avidez de descoberta e de exploração do limite até do seu próprio corpo, não constitua perigo para si ou para os outros.

      A segurança da criança está então condicionada por um adulto capaz de entender a sua limitação na compreensão do perigo e, consequentemente, capaz de afastar situações que a coloquem em risco (falamos também dos acidentes domésticos: os objectos cortantes ou de fogo deixados à mão; os produtos químicos, nomeadamente os detergentes de lavagem de loiça ou de roupa, as fichas eléctricas sem protecção, as crianças na banheira por 1 minuto sozinhas, uma piscina sem protecção, uma porta de acesso à rua fácil de abrir… uma criança sozinha em casa…).

      Pai e Mãe são limite e contentores: são o limite do possível e do impossível, do razoável e do que não é razoável; e são contentores (contêm; acolhem, recebem) a angústia, o medo, a dor, a zanga, o afecto, o amor – todos os sentimentos que a difícil e bela arte de crescer nos traz e nos provoca; são (pai e mãe) o nosso primeiro e principal objecto de amor. E se não estão ali para dar limite e para conter (para amar!, mas o que são limite e contenção senão parte do amor /afecto), então quem está?

      O que a criança procura no adulto é segurança (no afecto, certamente), ou seja, quando busca o limite procura também a referência do que é ou não seguro, do que é ou não certo (e não a indiferença ou a vacilação própria da incerteza, da insegurança, do “não sei muito bem se te posso não deixar fazer isto…” – e isto é o quê? Medo de que a seguir, porque não deixei, tu já não gostes tanto de mim, mostras-me a tua zanga, e eu não tenho capacidade de enfrentar a força da tua zanga?!).

      Se em todo o momento o que a criança tem é um adulto incapaz de lhe dizer “é necessário que faças / não faças isto, porque… (e este “porque” abre a uma explicação a um possível entendimento por parte da criança do porquê do limite, que não tem relação com a arbitrariedade da ordem, ou da demonstração do poder / autoritarismo e não autoridade: “é assim porque eu quero”, “…porque eu mando”, “… porque eu digo”- expressões tão conhecidas da geração anterior!), então estaremos perante uma inversão de papeis entre adulto e criança, e a criança saberá jogar com essa vacilação e manipulá-la.

       E, acreditemos, não é efectivamente o que a criança deseja, ainda que em alguns momentos de frustração / contrariedade ela se manifeste com toda a força da sua zanga, que é verdadeiramente sentida, demolidora e cega” (incapaz de ver ou de ouvir qualquer outro argumento). Saber esperar é então uma grande virtude: mais tarde (estamos a falar de 10 a 20 minutos!: a zanga e o rancor dos adultos é que dura uma vida!) a criança estará capaz de ouvir, compreender e (eventualmente) aceitar. E nós pais / educadores, ganhámos, junto da criança, uma imagem real de segurança, de respeito, porque também a soubemos respeitar, porque também a soubemos proteger.

      Isabel Ferreira e Margarida Batalha
Educadoras da creche “Um Só Saltinho”

31-05-2007
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