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Edição Nº 119 Director: Mário Lopes Sexta, 3 de Setembro de 2010
Opinião
A Política do Caos
   


Valdemar Rodrigues

As finanças públicas andam pelas ruas da amargura. Por todo a parte fedem a Défice e a Passivo. Soluções governativas: aumento de impostos, congelamento de salários, cortes nas despesas com educação e saúde, entre outras contenções orçamentais de não menor relevância. Diferença essencial entre a “esquerda moderna” PS e a “direita social” PSD nesta matéria: a questão das “privatizações”, no tocante a premências e prioridades. Desta diferença ínfima que as divide, mais por razões de circunstância (i.e., dependendo dos grupos económicos interessados em financiar a máquina partidária que irá gerar o próximo “governo”) do que por qualquer razão de fundo ou princípio, tratam os técnicos. Os técnicos de educação são auscultados e sugerem reformas de fundo para a educação. Os da saúde são ouvidos e apresentam propostas muito concretas para a saúde. São técnicos: gente que fala daquilo que sabe, embora reconheça o óbvio de que não há educação sem saúde, nem saúde sem educação. Mas disso não tratam, porque não podem. Eis pois o primeiro grande mistério da governação moderna: a quantidade de temas que se vai acumulando nos interstícios das “especialidades” sem que ninguém arrisque tratar deles (os que por vezes tentam são logo classificados de “tudólogos”, embora às vezes até sejam sábios). Para a sociedade e a cultura modernas não existe céu nem lugar para polímatas: o que existe são estrelas e átomos e pontos onde a matéria é engolida, a que se dá o nome de “buracos negros” (pobre Leonardo da Vinci se vivesse num tempo destes). 

   O segundo mistério é algo menos prosaico: no mundo moderno as pessoas valem na proporção em que produzem objectos e conhecimentos úteis para a sociedade, no seu tempo. O valor moral de uma acção é avaliado pelas suas consequências mais ou menos imediatas. Ora, sendo a sociedade complexa (cada vez mais…), é quase impossível que a acção política possa ter resultados imediatos (bons ou maus), o que faz com que os governos vivam em constante aflição, alimentando o caos. Actuam em excesso (para o bem e para o mal), obcecados com as leis e a mudança imediatamente mais desejáveis, e amedrontados com o futuro constantemente previsto, revisto e redesenhado pelos técnicos. Ora, o que o sábio marinheiro faz, mais do que viver em permanente aflição com as tempestades, é aproveitar bem a calmaria. Navegando oceanos surpreendentes, o bom marinheiro sabe contemplar a beleza e o fascínio da natureza que evolui. E muitas vezes fundeia ao largo para observar os infinitos recortes da costa. É justo que perguntemos: de que gostam afinal duradouramente José Sócrates, Passos Coelho, Cameron, Papandreou, Zapatero e tantos outros líderes mundiais? Acaso coleccionam insectos, são grandes artistas ou praticam jardinagem? Quantas horas por dia as suas mentes estão livres de agitação, de sobressalto? Disponíveis para contemplar a beleza das coisas e a grandiosidade do mundo? E se nelas não há duradoura tranquilidade, acaso estaremos em guerra, ou para ela caminhando? Se assim for, quem é e onde está o inimigo? Se o inimigo é o défice, então quem são e onde estão aqueles a quem devemos (talvez os pudéssemos vencer, em vez de resignadamente deixarmos que nos arruínem as nossas vidas)? Sim, porque embora as dívidas sejam astronómicas, eles devem andar cá pela Terra! Se as mentes destes marinheiros tresloucados nunca param nem descansam, como haveremos nós de estar tranquilos e de viver a paz que (ainda) nos é possível? Se o barco não é navegável, porque não dizem simplesmente para nos atirarmos à água? Assim, talvez ainda alguns se salvassem.

   Aprendi na escola que a ciência trata daquilo que “é”, a política daquilo que “deve ser”, e a religião daquilo que nos escapa, por sermos fundamentalmente criaturas e não criadores do universo que arduamente nos esforçamos por entender (e dominar). Juntar política com religião é o que ainda hoje acontece, por exemplo, em muitos estados islamizados. É retirar ao homem as rédeas do seu destino. O Ocidente fê-lo durante séculos, com os prejuízos para a civilização que são conhecidos. O Iluminismo ajudou a desfazer esse casamento, mas logo a política se viu desamparada. E dirigiu para a ciência a sua atenção, que era a atenção original dos iluministas, no tempo em que a ciência era inimiga da religião. Da nova união nasceu a técnica, um híbrido perigoso através do qual a verdade se tornou manipulável, e do qual resultam as enormidades como essa ideia actual do “consenso científico”. O consenso pode existir quando muito em política, jamais em ciência. A morte de ambos os cônjuges é pois um desfecho trágico mas possível: a morte da política e das suas ancestrais disciplinas (a Dialéctica e a Retórica, sendo hoje esta última quase sinónimo de demagogia); e a morte da ciência enquanto questionamento permanente e metódico, e sobretudo dependente da curiosidade do cientista. Para a actual política dos caos concorrem todos estes elementos, que mereciam muito mais tenção do que aquela que vão tendo.
03-09-2010
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