Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
Fez-se justiça no processo Casa Pia?
Sim
Não
Não sei / talvez
Edição Nº 82 Director: Mário Lopes Terça, 21 de Agosto de 2007
Opinião
Cós, minha terra

     


Valdemar Rodrigues

Escrever sobre aquilo que se ama é muito difícil. Concluí um dia que nunca poderia escrever sobre a terra onde nasci por causa dessa proximidade: tudo o que dissesse viria inevitavelmente impregnado de paixão, dessa mundanal afeição própria das coisas vivas que ao relacionar-se se transformam, quase sempre sem o desperdício de terem de se explicar, dizendo-se. Mas se a razão prática me adverte que a possibilidade de conhecermos um objecto depende da nossa capacidade para nos distanciarmos dele, então obedecendo-lhe terei de me socorrer de uma outra razão, talvez estética, para poder falar daquilo que amo. E é por aí unicamente que seguirei, escusando-me portanto à ciência.

 

      É por isso que noto, sem existencialismo mas com tristeza, que o rio que corre pela minha aldeia, sendo mais belo para mim do que o Tejo, está hoje muito mais sujo do que estava há quarenta anos, quando as mulheres então nele lavavam os lençóis de pano cru e outros trapos com recurso ao temível sabão fosfatado. O rio onde na infância eu pescava pequenos peixes e enguias está hoje praticamente morto. Morto talvez de ninguém o ver ou pensar nele, como eu ainda hoje o vejo e o penso. Nele naveguei e nele naufraguei, sem temor da viagem nem receio da salmonela. Mas hoje parece que o rio da minha aldeia já não faz pensar em nada. E é isso que é triste. Pessoanamente triste. Até porque os rios de outras terras poluíram-se de gente e de fábricas que das suas margens se foram abeirando. Foram mortos mas a morte glorificou-os, tal como acontece com os bons soldados.

      As margens do meu rio estão cada vez mais sós, olham uma para a outra e perguntam-se: para onde terão ido as crianças? Quem as terá levado daqui? E a resposta encontro-a nas casas vazias e abandonadas. Nos campos silenciosos e nas fábricas que não chegaram a ser ou que foram sendo aos poucos despovoados de gente.

      Em Cós sinto ainda o murmurar das monjas subindo pela calçada até ao celeiro. E ouço as palavras místicas de Dona Benta de Aguiar, sussurradas ao ouvido do Cardeal D. Henrique, prenunciando o desastre das tropas portuguesas em Alcácer-Quibi, ao comando de El-Rei D. Sebastião. E perco o sentido do tempo, como um nevoeiro que cristalizasse em memória o tempo das pedras que restam do dormitório das religiosas, e de todas as pedras que a ignorância dos homens tirou do seu lugar. E não consigo perceber como foi possível que a envolvente dessa pérola do património nacional que é o Convento de Santa Maria de Cós, da ordem feminina de cister, chegasse ao actual estado de degradação.

      Como pode um monumento destes estar encerrado ao público durante a maior parte do ano? Sim, até os olhos das estátuas embaciam e as pedras perdem a memória. Agora as corujas já não bebem no convento o azeite das lamparinas, e a chuva nos algerozes, nas longas noites de Inverno, é  interrompida pelo barulho dos automóveis e das televisões. A minha aldeia nunca mais será a mesma, e isso é certo, como é certa a morte para aqueles que vivem.  Mas não há razão nenhuma para que Cós continue a morrer apenas porque alguns olhos cegos são incapazes de ver a sua beleza. Se um dia alguém der valor àquilo que alguns de nós desprezámos, não teremos que nos queixar. Pois é unicamente através do amor que as coisas belas podem ser possuídas.

Cós,  13 de Abril de 2007

    Valdemar Rodrigues
    Prof. Universitário

21-08-2007
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
EDITORIAL
Os incentivos à natalidade
Mário Lopes
OPINIÃO
Calão, gírias e alcunhas
Henrique Tigo
Cós, minha terra
Valdemar Rodrigues
Porque é importante mudar o sistema de funcionamento dos serviços municipais de projectos e urbanismo
Por António Galamba e Nicolau Borges
Um ano lectivo muito negativo por acção de um M.E. desacreditado
Mário Nogueira
Dois anos de pura ficção: «uma espécie de magazine à socialista»
Paulo Batista Santos
Alcobaça – Maravilha Nacional. E agora?
Eduardo Nogueira
O Mosteiro da Batalha: Maravilha de Portugal
António Lucas


 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o