 |
| Leonor Carvalho |
Vou contar-vos uma história verídica: sexta-feira, 8 h e 15 m, faltava um professor. Tocou o telefone e chamam o primeiro da lista das substituições que era eu. Vejo-me perante uma turma de 5ºano, nível que eu nunca dei e para o qual não recebi formação pedagógica. Apresentei-me.
- S"tora: o que quer dizer b-e-e?
- Bee? Em Português, nada.
- Em Português? Mas isto não é aula de Inglês?
- Não, não. Eu sou professora de História...
- Mas olhe que se enganou! Nós só temos História na hora a seguir!
- Não, eu estou aqui para substituir a vossa professora...
- De Inglês
!
A lógica deles era irrefutável. Aliás, eles tinham razão: o que estava uma professora de História do 3º Ciclo a fazer frente a uma turma de 2º Ciclo que deveria estar a ter Inglês?
- Não..quer dizer...sim. Vocês iam ter Inglês, mas a professora teve de faltar. Então eu estou aqui para evitar que vocês estejam por aí, sem nada que fazer...- a voz ia-se-me sumindo ao recordar envergonhadamente a alegria que eu tivera quando aluna a cada falta de um professor; eu estava a matar "os furos", "os furos" que tantas alegrias me tinham dado!
- Mas, olhe, hoje nem está a chover. Nós podíamos estar a jogar à bola.
Era duro demais para mim aquele debate com a lógica da ingenuidade que consegue desmascarar completamente a "adultice institucionalmente idiota." Ainda tentei brincar e dizer-lhes que ia propôr ao Ministério que só se fizessem substituições quando chovesse, mas as forças iam-me faltando.
Depois eles quiseram decidir o que faríamos quando não tivessem o professor curricular e eu estivesse com eles. Aí tive de lhes explicar que eu poderia nunca mais "calhar" com eles e que de cada vez lhes poderia aparecer uma pessoa diferente e que não valia a pena definirmos nada. A incredulidade dos olhos deles feria-me tanto que baixei os meus, envergonhada com o papel que estava a desempenhar.
Felizmente, alguém espirrou, os outros disseram "santinho" e eu ofereci-me para lhes explicar porque é que se diz isso quando alguém espirra e consegui captar a atenção deles com alguma coisa em que eu estava à-vontade, passeando pelas crendices medievais, o medo do Diabo e a expresão da religiosidade no quotidiano. Correu bem! Afinal foi "uma história com final feliz", porque ainda estávamos entretidos a conversar quando chegou a professora a seguir...para lhes dar aula de História.
Esta história acabou, mas muitas outras estão a acontecer por todo o país agora mesmo. Não sei se os outros estão tão ofendidos como eu e só vou falar em nome pessoal, porque não estou mandatada por mais ninguém.
Eu tirei o curso de História. Sou professora há 13 anos (alguns dirão que é pouco, mas corresponde a um grande investimento profissional para mim), tenho-me empenhado em continuar a ninha formação científica e didáctica (em História) e este ano enfrento 6 turmas (cerca de 150 alunos), de 3 níveis diferentes a quem tinha pensado dedicar-me a tempo inteiro para lhes proporcionar as melhores aulas de História que conseguir dar: o que passa por muita pesquisa, organização de materiais e de actividades. Estou profundamente ofendida com o que o Ministério da Educação me está a fazer. Será que para a instituição que me tutela "dar aulas" se resume a "entreter meninos"?
Devo esclarecer que, apesar da minha nostalgia adolescente dos "furos", concordo plenamente com a medida de manter os alunos seguros e ocupados na escola, defendendo-os dos perigos que vagueiam por aí, mas parece-me um trabalho muito mais talhado para animadores culturais, que os temos e bons em Portugal. Compreendo que o Ministério queira rentabilizar os recursos e que lhe saia muito mais barato, em termos económicos, explorar os profissionais a quem já paga; além disso satisfaz a "opinião pública" que às vezes gosta de dizer que os professores são uns malandros que só trabalham 22 h por semana.
Convido qualquer pessoa a avaliar os alunos que eu tenho nas 22 h que estou com eles. Quando preparariam as aulas? Quando organizariam as visitas de estudo? Quando fariam e corrigiriam os testes e trabalhos? O meu horário é de 35 h, e acreditem que não me sinto culpada se numa tarde de semana não estiver agarrada aos papeis porque sei que o vou pagar no fim de semana a preparar os testes e as aulas.
A sabedoria popular diz que "o barato sai caro" e eu gostaria que considerassem se esta ofensa à dignidade profissional (para os professores que levam a sua carreira a sério) não poderá causar desmotivação e desalento e reflectir-se num decréscimo de qualidade nas aulas dos alunos que nos foram atribuídos para ensinar e educar durante um ano lectivo. Lá porque o material é o mesmo, o artífice pode não estar especializado em determinada obra. Tanto me ensinaram a planificar, a preparar, tanto me recomendaram que nunca deveria aparecer à frente dos alunos sem as coisas preparadas, sem saber o que fazer e agora é o mesmo Ministério que me deu o estágio onde me ensinaram isto que me envia periodicamente para a frente de turmas diferentes, para "entreter meninos", desrespeitando a minha dignidade profissional. Sou professora, não "entertainer"!
E não adianta ter a mentalidade mesquinha de pensar que muita sorte tenho eu de estar empregada quando outros estão na rua, porque precisamente alguns desses outros poderiam começar a carreira com este tipo de actividades, mas isso implicava que o Ministério lhes pagasse e sairia "caro" em termos económicos, ainda que fosse muito lucrativo em termos educativos.
A educação é a base do futuro. Nós estamos a empenhar o nosso futuro com medidas de contenção orçamental ridículas, quando continuamos a esbanjar em muitas outras coisas - basta ler notícias.
Espero que me perdoem o desabafo, mas estou muito ofendida na minha dignidade profissional. Às vezes, penso se este Ministério da Educação merece o meu empenho, mas por enquanto ainda continuo a acreditar naquilo que faço e na importância que o meu trabalho terá no futuro. No entanto, pensando bem, estes políticos também passaram pela escola e olhem o resultado que deu?...
Leonor Carvalho